Há menos de um ano um violeiro ou, pelo menos, alguém que luta para chegar à condição de um desses magistrais instrumentistas entregou ao lutier Pedro Santos, em Guanambi, no sudoeste da Bahia, já perto do norte de Minas Gerais, uma viola com o cavalete descolado do tampo.
Fazia dó ver aquelas 10 cordas, de um lado presas nas tarraxas; do outro, soltas, dependuradas ao longo do braço, arcando para impedir que o pedaço de madeira se desgarrasse do corpo do instrumento.
Se as cordas abraçam as tarraxas, de modo mais íntimo elas penetram no corpo do cavalete, depois dão uma volta, envolvendo-o. Por isso que o seguraram até a chegada ao ateliê do fazedor de instrumentos musicais.
É como se a viola estivesse doente, precisando de socorro. A viola fica doente, sim.
Quem disse isso foi o professor e folclorista paulista de Piracicaba Alceu Maynard Araújo (1913-1974), em uma série de oito artigos publicados na Revista Sertaneja, entre julho de 1958 e maio de 1959.
“A viola se resfria, se constipa, apanha quebranto, fica rouca ou fanhosa, se destempera e chega até a ficar reumática”, teria escrito o professor, segundo alguns biógrafos.
Essas doenças, no dizer do folclorista paulista, seriam provenientes do antropomorfismo, visão filosófica que atribui características e comportamentos típicos da condição humana às formas inanimadas da natureza ou aos seres vivos irracionais.
“Basta haver amor por determinada cousa, para que o homem lhe empreste imediatamente certos atributos humanos”, escreveu, acrescentando que a viola possui braço, costas, boca, orelhas (tarraxas), pestana. Eu junto mais: cintura, corpo, choro.
Os males aos quais se referiu o professor e folclorista piracicabano são identificados no instrumento pelo lutier guanambiense como incorreção, funcionamento irregular ou falhas. “Não é muito comum, mas, de vez em quando alguém fala sobre defeitos em seus instrumentos”, escreveu Pedro Santos a mim, por correio eletrônico.
No raciocínio do professor Alceu Maynard, “embora a viola tenha lá suas doenças, é inegável o poder que ela possui para curar, quando tocada em romarias para São Gonçalo do Amarante”. Para ele, o instrumento tem grande função medicinal: cura doenças, mata a saudade, elimina a tristeza.

O cavalete, na parte inferior do corpo da viola
INDICAÇÕES DE PEDRO SANTOS
Quem conhece uma viola, um violão, um violino, qualquer que seja o cordofone, sabe da importância do cavalete. Se mal posicionado, fora da medida, embaraça a sonoridade, prejudica o papel melódico das cordas.
No atelier o aprendiz de violeiro contou que havia saído pela manhã com sua viola, uma Rozini Série Profissional, cinturada, de cavalete de jacarandá, acondicionada em um estojo, para tocar. Ao retornar, no início da tarde, deixou-a sobre um móvel, na sala, onde havia funcionando um ventilador de teto. Duas ou três horas depois, a peça se descolou.
Mudança de temperatura, o vento provocado pelo ventilador, um defeito na colagem do cavalete ou falta de cuidado. Tudo isso ele perguntou ao lutier quando lhe entregou a viola para o devido reparo. O que lhe respondeu Pedro Santos eu não sei.
A mim, ele disse que questões éticas impediam-no de fazer comentários sobre um instrumento que não construíra.
Pedro Santos sabe que a luteria não se pratica com a frieza dos números, mas com o calor das experiências e usando madeira, um material orgânico sujeito a variações de tensões, temperatura e umidade. Diz ele: cada madeira tem sua consistência, produz som distinto.
Agora, ao invés de fazer a edição do texto que o lutier Pedro Santos me enviou, a partir da conversa sobre a viola que sofreu a avaria, resolvi publicá-lo na íntegra, sem interferência editorial, por entender que assim tem mais força como depoimento profissional:
“VENHO aqui compartilhar algumas dicas para melhor conservação do seu instrumento. A cada dia que passa a gente vai ganhando experiência no assunto e eu me sinto na obrigação de compartilhar com todos vocês.
Não é muito comum, mas de vez em quando alguém fala sobre alguns defeitos em seus instrumentos. O mais comum é: ‘O meu instrumento empenou o braço, ondulou ou baixou o tampo’.
Na verdade, um instrumento para ter boa sonoridade acústica precisa ser fabricado com certa sensibilidade, de modo que possa apresentar boa vibração interna. Por ser feito de madeira, material orgânico sujeito a variações de tensões, temperatura e umidade, isso acaba deixando-o de certa forma frágil.
Percebo nos últimos tempos que o que mais provoca esse tipo de problema é o uso de cordas muito pesadas e, também, deixar o instrumento continuamente afinado…
Ora, se ele é feito de material de certa forma frágil e que se movimenta com as variações climáticas, certamente a tensão provocada pelas cordas vai forçar em um só sentido, sem ter nada para contrariar, ou pelo menos descansar por um período de tempo, de modo a impedir a continuidade do problema.
Para evitar danos dessa natureza aconselho não se usar cordas muito pesadas e sempre desafinar o instrumento toda vez que for viajar, ou quando o mesmo não estiver em uso. No caso do bandolim, é bom deixar afinados o primeiro e o último pares, para manter o cavalete no lugar correto.
É bom mantê-lo sempre dentro de um estojo e afastado do calor ou de umidade excessiva. Seria bom o músico dedicado ter pelo menos dois ou três instrumentos, mesmo que não sejam todos de primeira, para revezar e deixar o melhor deles às apresentações especiais, a exemplo de shows e gravações.
Assim, ele manteria os instrumentos descansados de três a seis dias por semana e evitaria maiores desgastes nos trastos. Tenho clientes que procedem dessa maneira e o resultado é positivo.“
Nesta viola, construída por Pedro Santos, aparece a compensação em alguns tratos. Trata-se de um sistema criado pelo violeiro Goiano (Valdomiro Neres Ferreira), que formou dupla com Paranaense (João Roberto Alonso) na década de 1980, e desenvolvido pelos irmãos Alício e Durval Binatti, criadores da viola Binatti. A modificação consiste em leve curvatura no trasto de modo a permitir melhor afinação. Muitos construtores de viola já utilizam este recurso.


É como se a viola estivesse doente, precisando de socorro. ” A viola se resfria, se constipa, apanha quebranto, fica rouca ou fanhosa, se destempera e chega até a ficar reumática”…a viola possui braço, costas, boca, orelhas (tarraxas), pestana. Eu junto mais: cintura, corpo, choro.
Ari, meu amigo, coisa linda demais de se ver…de se ler…de se tocar…de se sentir.
Saudades dos nossos papos…Saudades de vc…Saudades de mim…Saudades de nós!
Muitas coisas novas pra te contar e sei tb que para ouvir… e muitas outras novas…
Jesus te ilumine.
Bj no coração!
Por: Rita Moura em 02/11/2011
às 20:18
Muito obrigado, Manu. Um grande abraço
Por: ari donato em 01/11/2011
às 21:44
Também sinto saudades, Wesley.
Que Deus nos proteja e nos conduza sempre para o bem. Fique com Cristo, nosso Grande e Único Mestre.
Abraços, meu amigo.
Por: ari donato em 01/11/2011
às 21:47
Grande Ari Donato! Muitas saudades de ti. Obrigado pela visita. Estou retribuindo e aproveitando pra respirar um pouco essa sua paixão tão contagiante. Um abraço bem forte. Estou orando por você. Que Jesus Cristo nos abençoe…
Por: Wesley Sobrinho em 01/11/2011
às 18:17
Massa, Ari!! Estou acompanhando o blog… Abrçs
Por: Manuela Bacelar em 01/11/2011
às 10:41
Muito Interessante o seu trabalho ARI,
Também reformei uma viola com o luthier daqui de Feira de Santana, estou revendo algumas batidas e acordes e aprimorando mais…
Qualquer hora a gente encontra pra fazer uma cantoria
JOSÉ MARIA
Por: JOSE MARIA P LIMA em 31/10/2011
às 20:05
Obrigado Carol. Boa sorte com o violão. Sei que Pedro vai lhe ensinar, pois, quem toca um instrumento sempre quer ver outras pessoas também tocando. Grande abraço!
Por: ari donato em 27/10/2011
às 08:19
Muito obrigado, Maurício. Fico feliz com sua avaliação. Escrevo depois para vocês. Um abraço traterno.
Por: ari donato em 27/10/2011
às 08:07
Belo texto seu Ari. Um abraço e sorte com o blog, Mauricio Moradillo.
Por: Mauricio em 26/10/2011
às 16:09
Oi Sr. Ari, muito legal o seu trabalho. Tia Lica me passou seu e-mail e pude conhecer um pouco mais sobre viola… Estou tentando aprender violão. Pedro está se empenhando nesta dura tarefa. Um dia eu chego lá. Abraços, Carol.
Por: carol em 26/10/2011
às 15:03