11.08.09

Sua M. o violeiro Renato Andrade

Enviado em Biografia tagged , , , , , , , , , , , , às 23:21 por ari donato

O violeiro de gravata

O violeiro de gravata

“Moda bem tocada é aquela que desperta em nós uma saudade que a gente nem sabe do quê”. Essa definição sobre moda, denominação genérica de canção, canto, música de salão ou folclórica, teria sido dada pelo músico mineiro, nascido em Abaeté, Renato Andrade (1932-2005), segundo o jornalista José Hamilton Ribeiro (Música Caipira. São Paulo: Globo, 2006. 19 p.).

Considerado o maior executor da viola caipira no País, Renato Andrade somente foi se dedicar a este instrumento na idade adulta, tendo desenvolvido apurada técnica e dominado diferentes afinações, o que o tornou um virtuoso. De formação erudita, iniciada ainda na infância, com estudos de violino, ele deixaria este instrumento de lado, no final da década de 1970, para tocar a viola.

No livro Violeiros do Brasil (São Paulo: Myriam Taubkim, 2008. 92 p.), a pesquisadora musical Myriam Taubkim considera Renato Andrade o mais importante violeiro solista que o Brasil conheceu. Ao se referir ao mineiro, a autora assim se expressa: “Ampliou as ricas possibilidades da viola na música brasileira e, sem dúvida, estimulou os que vieram depois a se aventurarem na carreira solo”.

Almir Sater, um dos seus inspirados, costuma dizer que Renato Andrade, ao lado de Tião Carreiro, foi a alavanca da viola no Brasil; todos os violeiros admitem ser difícil chegar ao seu nível de perfeição. O próprio Renato sabia dessa condição e dizia que bons instrumentistas, citando Roberto Corrêa, Ivan Villela e Almir Sater, se inspiraram em sua técnica, considerada rara. Mas, Almir, que aos 12 anos tocava violão em Campo Grande (MS) e aos 20, no Rio de Janeiro, para onde fora estudar Direito, deixou tudo pela viola, diz ter aprendido a tocar sozinho.

“Eu nunca aprendi com ninguém, conheci vários violeiros, conheci o Tião, conheci o Renato Andrade, ouvi e procurei tocar igual e tal, mas somando todas as minhas influências, deu um toque pessoal, meu. Assim como você escuta o Zé Coco do Riachão, é um toque dele; quando se escuta o Renato Andrade tocando viola é inconfundível, enfim quando se escuta o Tião Carreiro pontear uma viola, é ele”. Portal Viola Caipira, Belo Horizonte (MG), disponível em Viola Caipira. Acesso em: 08 jan. 2009.

Capa do primeiro LP

Capa do primeiro LP

A dupla caipira paulista Tonico e Tinoco levou a viola para a cidade; Sua M. Renato Andrade conduziu-a até as salas de concerto. A jornalista e pesquisadora Rosa Nepomuceno escreveu em seu admirado livro Música Caipira, Da Roça ao Rodeio (São Paulo: Editora 34, 1999, p. 177-178) que o músico mineiro juntou o erudito e o popular; na expressão do próprio Renato, casou seus dois lados, o concertista e o capiau (mesmo que caipira, em Minas Gerais e Bahia).

Ainda de acordo com a jornalista de Botucatu (SP), no final dos anos 1970, quando Renato Andrade lançaria seu primeiro disco (A fantástica viola de Renato Andrade na música armorial mineira, em outubro de 1977), as rádios FM tocavam Zimbo Trio, Vinícius, Gil, Gal, Roberto Carlos, Novos Baianos e Elis Regina; nas AM nomes como Tibagi e Miltinho, Irmãs Galvão, Pedro Bento e Zé da Estrada dividiam espaço com Roberto Carlos.

Capa do segundo LP

Capa do segundo LP

O segundo álbum de Renato Andrade, o LP Viola de Queluz, saiu em 1979 e, tal qual o primeiro, pela Chantecler, gravadora que em agosto de 1963 lançou o LP Viola Brasileira, com o instrumentista Antonio Carlos Barbosa Lima interpretando sete prelúdios para viola e o concertino para viola orquestra de câmara, todas as peças do compositor e professor de música Ascendino Theodoro Nogueira (1913-2002).

Theodoro Nogueira nasceu em Santa Rita do Passa Quatro (SP), tendo estudado com o compositor, pianista e maestro paulista Camargo Guarnieri (1907-1993), tornando-se conhecido como pioneiro na valorização da viola brasileira como instrumento a ser integrado na prática erudita. Segundo pesquisadores, ele tem papel fundamental no estudo técnico-musical da viola caipira. Faleceu no dia 4 de outubro de 2002.

Na contracapa do LP Viola de Queluz, Theodoro Nogueira escreveu, ao apresentar o violeiro mineiro: “O valor musical de Renato Andrade é facilmente comprovado na execução de Urupês, num autêntico toque caipira. Nas outras obras apresenta efeitos interessantes, principalmente quando executa os harmônicos artificiais. Domina com facilidade seu instrumento, assimilando bem o toque sertanejo”.

O violeiro mineiro apresentou-se ao Brasil como erudito, devido à sua formação musical, conhecida no final da década de 1960 quando, aos 36 anos de idade, musicou e coadjuvou o filme “Corpo fechado”, de Schubert Magalhães, e fez shows no Rio de Janeiro, interpretando concertos de Edino Krieger, Guerra-Peixe e Francisco Mignone. Mas, ele sempre esteve preocupado com sua origem caipira.

Tanto que na contracapa do terceiro LP, O violeiro e o grande sertão, gravado em agosto de 1983, pelo selo Bemol, de Belo Horizonte, escreveu que tinha a proposta de mostrar as “coisas nossas”, na viola que viu e ouviu, tentando se aproximar da autenticidade, e que procurava, com isso, não fugir das origens.

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Capa do terceiro LP

“Nos meus dois primeiros LPs (Viola Fantástica e Viola de Queluz) mostro uma boa parte do que a viola é capaz”. E advertiu, ao se referir a esse terceiro disco: “Certamente, meu público e a crítica, na expectativa de um terceiro LP entre o erudito e o clássico, se surpreenderão ao me verem voltar às origens… Acontece que não pretendo olvidar o passado nem me comprometer com o futuro”.

Esse terceiro LP foi lançado em 1984, com todas as músicas e arranjos da sua autoria, à exceção de uma, do domínio público, o que levou Milton Nascimento a dizer que Renato Andrade conhece da viola e do sentimento que corre nas veias das Gerais. “Tem a alegria, o tormento, a ginga e a malícia dos que amam a terra”, escreveu.

De um humor extremamente irreverente, Renato Andrade, cujo nome no registro civil é Renato Rodrigues, traz ainda no currículo uma série de trilhas sonoras para filmes e trabalhos como ator. Costumava dizer entre um causo e outro que “Andrade é nome de guerra”. Em 2002, lançou seu último disco solo, Enfia a viola no saco e, em 2004, participou, ao lado de Roberto Corrêa, Almir Sater, Helena Meirelles, Haroldo do Monte e Chico Lobo, da coletânea Os bambas da viola, da Kuarup.

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Último disco gravado

Sua Majestade Renato Andrade, o violeiro que se apresentava de paletó e gravata, faleceu no dia 30 de dezembro de 2005.

Discografia

Em LP
1977 – A fantástica viola de Renato Andrade (Chantecler)
1979 – Viola de Queluz (Chantecler)
1984 – O violeiro e o grande sertão: A viola que vi e ouvi (Bemol)
1987 – A magia da viola (Chantecler)
1993 – Instrumental no CCBB – Renato Andrade e Roberto Corrêa (Tom Brasil) – ao vivo

Em CD
1998
– Violeiros do Brasil (Sesc) – coletânea
1999 – A viola e a minha gente (Lapa Discos)
2002 – Enfia a viola no saco (Lapa Discos)
2004 – Os bambas da viola (Kuarup) – coletânea

2 Comentários »

  1. Mário disse,

    “Moda bem tocada é aquela que desperta em nós uma saudade que a gente nem sabe do quê”. Muito sigficativa essa frase. É o que sinto quando ouço uma viola bem tocada. Grande homem, Renato Andrade. Um ser raro…

    Ari, belo texto. Leve, informativo e instigante.

    Um abraço e muita luz,

    Mário

  2. ari donato disse,

    Obrigado, Mário e um abraço fraterno.


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