09.03.09
Sérgio Reis: o peão violeiro

Almir Sater e Sérgio Reis formaram a dupla caipira (fictícia) Pirilampo e Saracura, na novela O Rei do Gado
Em uma manhã de outono, em 1967, ouvi pela primeira vez os acordes da balada “Coração de papel” e a voz de Sérgio Reis (1940) ampliados pelo alto-falante do Cine-Teatro Sorbone, na cidade de Guanambi, 800 km a sudoeste de Salvador, já na divisa com Minas Gerais. Embalados pela Jovem Guarda, meus ouvidos se renderam à bela melodia, que ainda ecoa tal a forma com que grudou em meu subconsciente.
“Coração de papel” saíra em dezembro de 1966, pela Odeon, em um compacto simples de vinil que tinha do outro lado “Fim de sonho”; duas composições de Sérgio Reis. A balada, que teria sido feita para Ruth, musa inspiradora e depois a esposa, foi relançada em fevereiro de 1967, em um compacto duplo, ao lado de “Fim de sonho”, “Nuvem branquinha” e “Qual a razão?”, todas da sua autoria.
Mas, o compacto de 1966 não foi o primeiro disco de Sérgio Reis, cuja carreira de cantor começara na Zona Norte paulista, aos 16 anos, com apresentação em programas de rádio e casas noturnas e o nome artístico Johnny Johnson. A estréia ocorreu em agosto de 1961: um 78 RPM pela Chantecler com o bolero “Enganadora”, de Umberto Silva-Souza Lima-Luiz Mergulhão, e a balada “Será”, de Waldemar Espinosa Garcia.
Em março do ano seguinte, ainda na Chantecler, ele gravou o segundo disco da sua carreira: outro 78 rotações por minuto (RPM) que trazia “Lana”, rock de Roy Orbison-Joe Melson, na versão de Carlos Alberto, e “Porque sou bobo assim”, versão de Oswaldo Scaldelay-Jair Fernandes Leggieri da canção “Part of a fool”, de Keller-Hunter.

A dupla caipira Luisinho e Limeira
O primeiro disco de vinil de longa duração (LP) viria em agosto de 1967, intitulado “Coração de papel”, com oito das 12 canções assinadas por ele. As outras, por Eduardo Araújo, Geraldo Nunes, Marcos Roberto e Dori Edson, e uma versão de “Here, there and everywhere”, de Lennon-McCartney, do álbum “Revolver” (1966), feita por Fred Jorge como “Amor, nada mais”.
Cabe aqui uma informação histórica sobre o armazenamento de áudio: começou no início do século XX com os discos de 78 rotações por minuto; única forma até 1948, quando surgiria a chapa de vinil, mais leve, mais resistente e mais tempo de gravação. No Brasil, o 78 RPM duraria até 1969: o disco de vinil seria substituído a partir do final dos anos 1980 pelo CD digital (em inglês compact disc), de pequenas dimensões, mas grande capacidade de armazenamento.

O compositor Goiá, homenageado
O mercado fonográfico brasileiro movimentou três tipos básicos de disco de vinil. O maior deles, o LP (abreviatura inglesa de Long Play), executado na velocidade de 33 1/3 rotações por minuto, tem diâmetro de 31 cm (12 polegadas) e armazena cerca de 20 minutos de dados (música) em cada lado, chegando a conter até 14 canções no total.
Os vinis foram produzidos ainda em dois outros formatos: o compacto duplo, ou EP (do inglês Extended Play), medindo 17 cm de diâmetro (7 polegadas). Sua duração de 16 minutos, rodado na velocidade de 45 rotações, comporta duas músicas de cada lado; o outro, chamado de compacto simples, ou Single Play (SP), também de 17 cm e tocado a 33 1/3 rotações, dura até oito minutos, com uma música de cada lado.
Por esta ocasião, quando os discos de vinil transformavam as velhas bolachas de 78 RPM em peças obsoletas, o movimento musical Jovem Guarda, que abrira espaço para Sérgio Reis e dezenas de outros cantores jovens, perdia seu principal agente: Roberto Carlos, que migrara para uma nova esfera, a partir do Festival de San Remo de 1968, na Itália, de onde voltaria distanciado do movimento musical criado em 1965.

Sérgio Reis no estúdio de gravação
Em 1969, com os últimos acordes das jovens tardes de domingo, Sérgio Reis lançou o LP “Anjo Triste”, mas sem o sucesso anterior, que voltaria cinco anos depois do estouro de “Coração de papel” com a balada “O menino da gaita”, gravada em 1972: uma versão do próprio Sérgio da canção “El chico del armônica”, do espanhol Fernando Arbex (1941-2003). O sucesso levou-o ao programa Globo de Ouro, da Rede Globo.
Ainda garoto, Sérgio acompanhava o programa de rádio “Na beira da tuia”, apresentado pela dupla caipira Tonico e Tinoco, da qual se tornou admirador, a ponto de pedir e ganhar do seu pai, o paulistano Erico Bavini (a mãe, Clara Reis Bavini, era carioca), uma viola. Com o instrumento, conheceu alguns acordes e tirou os primeiros sons musicais: sua ligação com a música sertaneja, e por extensão a caipira, vem desde esse tempo.
A afinidade, embora sufocada pela forte influência do rock e das baladas de Elvis Presley, esteve sempre latente, tanto que Sérgio Reis entrou para a Chantecler, em 1958, para gravação do seu primeiro disco pelas mãos do produtor Palmeira (da dupla caipira Palmeira e Biá) e Teddy Vieira, coordenador da área sertaneja e compositor de músicas caipiras. Eles procuravam um cantor de boleros para a gravadora e aprovaram Sérgio.
De modo que quando o movimento da Jovem Guarda se desfez Sérgio Reis seguiu pelas trilhas do sertanejo e, em 1972, viajou pelo interior do País, realizando shows; retomou o contato com a música caipira e entre os clássicos do repertório estava “O menino da porteira”, composição de Teddy Vieira e Luizinho, gravada em 1955 por Luisinho e Limeira, pela RCA Victor.
Sempre aplaudida quando cantada nos shows, a canção animou Sérgio Reis a ponto de gravá-la em 1973 em compacto simples pela RCA Victor, que tinha do outro lado “Eu sei que vai chegar a hora”, de sua autoria. No arranjo de Élcio Alvarez para “O menino da porteira” aparece a guitarra do tempo do iê-iê-iê, mas que não descaracterizara a batida do cururu, do interior paulista. A partir daí, Sérgio passou a interpretar a música caipira com inovação instrumental.
Também em 1973, ele gravou o disco intitulado “Sérgio Reis”, com viés sertanejo, mas ainda com marcas da Jovem Guarda, embora trouxesse as canções “O menino da gaita” e “O menino da porteira”. Os dois álbuns seguintes sacramentaram a presença de Sérgio Reis na música sertaneja: em 1974, pela RCA, com o título de “João de Barro”; em 1975, “Saudade da minha terra”. Este último deu-lhe o Disco de Ouro (100 mil cópias vendidas).
Em 1975, quando a Jovem Guarda completava 10 anos do seu surgimento, Sérgio Reis já se afastara para cavalgar pela estrada de Ouro Fino. Ele entrou de vez no sertanejo e continua até os dias de hoje. Assim, em 1977, interpretou o boiadeiro no filme “O menino da porteira”, de Jeremias Moreira Filho, re-filmado rodado este ano com Daniel no papel do boiadeiro. Em 1978, voltou a cinema, no filme “Mágoa de Boiadeiro”, dirigido por Venceslau M. Filho.
Dados cronológicos
1982 – Participa da novela “Paraíso”, da Rede Globo.
1982 – Faz o terceiro filme, “Filho adotivo”, dirigido por Deni Cavalcanti.
1982 – “O Melhor de Sérgio Reis” vende mais de 1 milhão de cópias.
1983 – Grava “Panela Velha”, de Moraezinho-Auri Silvestre.
1987 – Grava “Pinga ni mim”, de Elias Filho.
1990 – Participa da novela “Pantanal”, da TV Manchete, ao lado de Almir Sater.
1991 – Começa o programa de rádio “Siga bem caminhoneiro”.
1996 – Participa da novela “O Rei do Gado”, da Rede Globo, formando com Almir Sater a fictícia dupla “Saracura e Pirilampo”.
1997 – Programa “Sérgio Reis do Tamanho do Brasil”, na TV Manchete.
1997 – Grava com Helena Meirelles o samba “Guiomar”, de Haroldo Lobo e Wilson Batista, no CD “Raiz Pantaneira”, da violeira, produzido por Tony Campello para a Gravadora Eldorado.
1999 – Programa “Sérgio Reis”, no SBT.
2000 – Lança “40 Anos de Estrada”, caixa de cinco CDs em que recapitula sua carreira.
2000 – “Melhor Álbum Sertanejo”, na primeira edição do Grammy Latino.
2001 – “Nossas Canções”, com composições de Roberto Carlos.
2001 – Em Ouro Fino (MG) tem as mãos imortalizadas em monumento que marca os 252 anos da cidade.
2002 – Sofre um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e inicia tratamento.
2003 – Exames mostram que se livrara da ameaça de um novo AVC.
2003 – Grava ao vivo do CD e DVD “Sérgio Reis & Filhos – Violas e Violeiros”.
2005 – Programa “Terra Sertaneja”, na TV Bandeirantes.
2006 – Volta, ao lado de Almir Sater, a participar da novela “Bicho do Mato”, pela Record.
2006 – Após três anos sem gravar um disco inédito, lança o CD “Sérgio Reis – Tributo a Goiá”, em homenagem ao compositor Gerson Coutinho da Silva (1935-1981).
2008 – Lança o disco “Coração Estradeiro”.
2009 – Lança o disco “50 anos Cantando o Brasil”, caixa com quatro discos.
Conforme o site do cantor Sérgio Reis, estes são os seus lançamentos e coletâneas, ao longo da sua carreira, sem contar os compactos e as participações especiais.
2009/50 Anos Cantando o Brasil
2008/Coração Estradeiro
2006/Tributo a Goiá
2003/Sérgio Reis e Filhos Violas e Violeiros
2003/O Divino Espírito do Sertão
2002/Sérgio Reis-Nossas Canções
2001/Sérgio Reis-100 Anos de Música
2000/Sérgio Reis
2000/Sérgio Reis & Convidados
2000/40 Anos de Estrada
2000/Sérgio Reis-Dose Dupla
2000/Jovem Guarda-Série Bis
1999/O Melhor de Sérgio Reis
1999/O Essencial de Sérgio Reis
1999/Popularidade
1998/Essencial
1998/Sérgio Reis do Tamanho do Brasil
1998/Sérgio Reis Coleção JT
1997/Boiadeiro
1997/Vida Violeira
1996/O Rei do Gado
1996/Marcando Estrada
1995/Os Originais-Sérgio Reis/Coração de Papel
1995/Grandes Sucessos
1994/Ventos Uivantes
1993/Sérgio Reis Acervo Especial
1993/Sérgio Reis
1991/Sérgio Reis/O Rapto
1990/Pantaneiro
1989/Sérgio Reis
1988/Sérgio Reis
1987/Sérgio Reis/Pinga ni Mim
1985/O Melhor de Sérgio Reis Vol. 2
1985/Sérgio Reis/Trem do Pantanal
1984/Sérgio Reis/Adeus Mariana
1983/Sérgio Reis/Panela Velha
1983/Disco de Ouro
1982/A Sanfona do Menino
1982/Os Grandes Sucessos de Sérgio Reis
1982/O Melhor de Sérgio Reis
1981/Boiadeiro Errante
1980/Disco de Ouro
1980/Sérgio Reis/Lobo da Estrada
1979/Sérgio Reis
1978/Natureza
1978/Mágoa de Boiadeiro
1977/Relaciones Internacionales
1977/O Menino da Porteira
1977/Sérgio Reis-Disco de Ouro
1976/Retrato do Meu Sertão
1975/Saudade da Minha Terra
1974/Sérgio Reis em Espanhol (promocional)
1974/João de Barro
1973/Sérgio Reis
1969/Anjo Triste
1967/Coração de Papel
1961/Primeira gravação, em disco Chantecler (78-0503), em agosto, com orquestra sob regência de Élcio Alvarez, com as canções: Enganadora (Umberto Silva-Souza Lima-Luiz Mergulhão) e Será (Waldemar Espinosa Garcia).
Veja mais informações no site de Sérgio Reis
carmezim disse,
11/09/2009 às 08:33
Lembrei de você, ó:
http://www.saraivaconteudo.com.br/artigo.aspx?id=108