06.27.09
Mata do Iuiú, casos de onça e viola

A beleza das serras e matas da região próxima ao Vale do Iuiú
LOCALIZADO em extrema faixa de terra baiana, já perto de Minas Gerais, na margem direita do Rio São Francisco, o Vale do Iuiú, a 130 quilômetros a oeste da cidade de Guanambi, que em si, está a cerca de 700 quilômetros a sudoeste de Salvador, povoou meu imaginário de criança. A mata, os animais, os rios, os desbravadores, tudo entrava nas histórias que eu ouvia, contadas por pescadores e caçadores que se embrenharam por aquela região de trechos ainda virgens.
Quando saí da adolescência, no início da década de 1970, já não mais escutara casos da mata do Vale do Iuiú. Aqueles pescadores e caçadores, como por encanto, desapareceram. E com eles sumiram as histórias de onças que devoraram homens, mulheres e crianças naquelas matas fechadas; jacarés que engoliram braços e pernas de pessoas nas lagoas encantadas e de viajantes que se perderam e jamais foram achados.
Anos depois, essa situação veio a se materializar em minha consciência e projetou, de um lado, as causas do desaparecimento de uma das bases de minhas ficções infantis; do outro, o reflexo que essas histórias teriam, mais tarde, na minha formação cultural sertaneja. A exploração do algodão, que sucedeu à pecuária extensiva, foi o maior responsável pela extinção da mata do Vale do Iuiú, presente, agora, somente na lembrança.

Onça pintada, mas em cativeiro
… “A fogueira, a noite,
redes no galpão.
O paiero, a moda,
o mate a prosa,
a saga, a sina,
o causo e onça.
Tem mais não.
Oh! peão” ….
* Trecho de “Peão”, canção do Centro-Oeste, de Renato Teixeira e Almir Sater
Estudo apresentado em 2005 pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), durante um simpósio sobre reflorestamento, mostrou que apenas 5% da mata nativa da Serra Geral, Planalto de Conquista e Jequié haviam resistido ao desmatamento. Do Vale do Iuiú até Cândido Sales, passando por Vitória da Conquista, somavam, na época, mais de 250 quilômetros de mata destruída, ora para formação de pasto e agricultura, ora em lenha para carvão.
Nas informações a respeito do município do Iuiú, com 11.469 habitantes (2007) e uma área de 1.096 km², desmembrado em 2 de fevereiro de 1989 do município de Carinhanha, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra: “A fertilidade de suas terras chamou a atenção de muitos moradores de outras regiões, como Palmas de Monte Alto, Guanambi, Riacho de Santana, Bom Jesus da Lapa, Caetité e Carinhanha”.
Meu avô materno, Domingos Antônio Teixeira, faleceu em 30 de novembro de 1976, mas, antes dessa data, disse a mim que o povoamento de Carinhanha, nas margens do São Francisco, contou com a ação dos bandeirantes. Historiava que esses exploradores tomaram a região como base do comércio entre Minas e Bahia, principalmente para criação de gado. Certamente, meu avô teria dito: a ocupação do Iuiú está ligada à do município de Carinhanha.

O Vale - óleo sobre tela, 50x60cm, de Guilherme de Faria (São Paulo, 1943), da década de 1980, da coleção de Flávio Pacheco, São Paulo
O que são para mim a ocupação do Vale do Iuiú, a fertilidade de suas terras, a uma altitude de 490 metros, os casos de onça e a derrubada das árvores? Representam a ligação entre as diversas manifestações culturais que há por todo o sertão brasileiro e colocam-me frente a frente com a figura do repentista, do poeta cantador, que improvisa versos ao som da viola, rimados e metrificados, na forma de cantorias, trovas, versos ou cururus.
Segundo o poeta cantador mineiro Téo Azevedo, o repente está em toda parte do Brasil. No Nordeste é chamado de “cantoria” e chega a 60 modalidades; no norte de Minas Gerais é “jogar versos”, com 15 tipos; no Rio Grande do Sul, “trova”, com 10 formas; em São Paulo chama-se “cururu”, com cerca de 10 maneiras; no Centro-Oeste é “tirar-verso”, com pouco mais de quatro tipos; e no Rio de Janeiro é “partido alto”, com três modalidades (Encarte do CD “Cantoria de Viola”, Vol. 8).
Uma dessas cantorias, “Criança morta”, poema dos consagrados repentistas Sebastião da Silva e Moacir Laurentino, que ouvi pela primeira vez em 2000, no disco “Violas da minha terra”, fez-me relembrar das histórias dos caçadores e pescadores. Composto em sextilha, de sete sílabas em cada um dos seis versos, e cantado ao som da viola, narra a história de Edinete, criança de quatro anos de idade que se perde e morre de fome no mato, a seis quilômetros da sua casa.

CD de Moacir Laurentino e Sebastião da Silva, de 2000
No livro “Zé Limeira, poeta do absurdo”, o cantador, folclorista e professor paraibano Orlando Tejo (Campina Grande, 1935) escreveu: “Os cantadores constituem imensa legião de homens que amam, sonham, sofrem e brincam de viver no mundo, pescando estrelas, caçando ilusões, plantando tardes, colhendo auroras, levando sua imagem sutil e profunda, tímida e vigorosa ao povo ávido de poesia que os ouve embevecido”.
Ainda segundo Téo Azevedo, a cantoria nordestina apresenta diferentes modalidades, a exemplo da sextilha, do poema, do mote de sete sílabas e do mourão, entre outros, sempre dividida, basicamente, em tradicional, com versos prontos e decorados pelo cantador, e de improviso, que é o repente, do verso de momento usado nos desafios. Em ambos os casos, a criatividade e a preservação da cultura são regra para os cantadores e violeiros.
Duplas como Sulino e Marrueiro, violeiros do Sudeste, e Moacir Laurentino e Sebastião da Silva, repentistas do Nordeste, por exemplo, povoam meu imaginário sertanejo. Os primeiros, paulistas, com seus cururus decorados, e os outros dois, paraibanos, com seus repentes, mostram a mesma linha mestra: dois violeiros cantam versos sobre variados temas, acompanhados de uma viola.
Um exemplo, entre os muitos encontrados na música sertaneja, são a moda de viola “Corumbá” (O cachorro Corumbá), de Sulino e Teddy Vieira, e cantada pela dupla paulista, e o poema “Criança morta”, narrado pelos repentistas nordestinos, que seguem o mesmo fraseado: pessoas perdidas na mata, que morrem antes de chegar o socorro. São sextilhas (estrofes de seis versos), de sete sílabas cada um, com rimas nos versos pares, diferentes só no número de estrofes.
Seis estrofes (1ª,2ª, 5ª,6ª, 10ª e 11ª) das 13 que compõem o poema “Criança morta”.
Dos poemas que escrevi
por meio da inspiração.
Este é o mais comovente,
porque tem a narração
de um dos casos mais triste
que já se viu no sertão.
Trata-se de uma menina
de uma beleza extrema.
De quatro anos de idade,
com quem se deu o problema
e tornou-se a central figura,
das emoções do poema.
……
Vinte e sete de novembro
do ano setenta e seis.
Pelas três horas da tarde
ou pouco antes talvez
os pais de Edinete a viram
viva pela última vez.
Pois se a criança brincando
no pátio da moradia,
se entretendo com árvores
ou com animais que via
e aos pouco entrou no mato
sem saber pra onde ia.
…….
Na manhã do dia trinta
já todos sem esperança.
No lugar Serra dos Bois
num talhado que se avança,
neste local esquisito,
acharam morta a criança.
Morreu de fome e de sede
em situação singela,
mais ou menos seis quilômetros
do local pra casa dela.
As folhas foram seu leito
e a lua serviu de vela.
Abaixo, sete (1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 6ª, 7ª e 8ª) das dez que formam a moda de viola “Cachorro Corumbá”:
No sertão do Paraná
vou contar o que assucedeu
Uma jovem paranista
que ali desapareceu.
Por causa de um namorado
a coitadinha enlouqueceu
Isto foi no meis de agosto
este fato aconteceu…ai
Ela entrou na mata escura
bem no centro se perdeu
Ela foi pra suicidar
mas sua corage não deu
Um cão por nome Corumbá
junto com ela rompeu
No meio daquelas fera
o Corumbá foi que valeu
E no pé de uma figueira
ela chegou e escureceu
Ali passou a noite inteira
na hora que amanheceu…ai
Ela viu um pavão gemeira
e seu corpo estremeceu
Por ela tá nervosa
ainda mais entristeceu.
…….
Esta sorte tão ingrata
que não me favoreceu…ai
E dipois dessas palavras
suas força enfraqueceu
a pobre caiu no chão
entregou sua arma a Deus
Na hora dela morrer
pro Corumbá ela agradeceu
Obrigado meu bão amigo
que muitas veiz me valeu
Você foi um companheiro
que sempre me defendeu
Corumbá deu um uivado
que até a mata tremeu…ai
Ela fêis a despedida
paraíso, adeus, adeus,
Deu um suspiro duído
e na mesma hora morreu.
* A grafia segue a pronúncia dos violeiros, na gravação de 1949
vivianbarbosa disse,
29/06/2009 às 08:25
Então, meu caro Ari!
Esse blog foi influência daquele seu email! hehe
Quando vc escreveu “Não deixe de ler bons livros (releia os clássicos, sempre ajudam a melhorar o estilo da escrita, pois o estilo, a beleza do texto é que prende a atenção do leitor) e jornais de outros estados, para comparar abordagens, enfoques. Uma coisa simples, que poucos dão valor: releia seu texto”, achei que um blog me ajudaria nessa batalha, pois poderia exercitar outros tipos de textos e posicionamentos, que o dia-a-dia de trabalho não me permitem, pelo enfoque ser outro.
Mais uma vez, obrigada pelos ensinamentos, Mestre!
ari donato disse,
29/06/2009 às 10:11
Vivian, muito obrigado, fico muito feliz em saber disso. Um abraço e que Deus a abençoe!
Andreia disse,
29/06/2009 às 15:06
Oi Ari, que lembranças lindas, deu até pra sentir o cheiro da mata e ouvir a respiração da onça! Um grande beijo.
ari donato disse,
29/06/2009 às 15:45
Valeu, Dréia!. Um beijo
Ygor Coelho disse,
02/07/2009 às 17:19
Caro Ari:
Viajando pelos seus textos lembrei de Tolstoi: “Cante a tua aldeia e serás universal”. Você fala da sua terra com ternura e prazer. Nos faz sentir orgulho de tê-la um dia conhecido e vontade de voltar a admirá-la.
ari donato disse,
02/07/2009 às 21:20
Meu caro Ygor
fico muito feliz com seu comentário e, mais ainda, por saber que você conhece minha cidade natal!
Guanambi!
Sei que ainda voltarei
a ver o pôr do Sol
na terra onde nasci.