04.27.09

Chamamé em Guanambi?

Enviado em Música Caipira tagged , , , , , , , , , , , às 22:31 por ari donato

Violões e o bandoneon, no chamamé de Corrientes, na Argentina

Violões e o tradicional bandoneon, no chamamé da província argentina de Corrientes

MUITAS E MUITAS noites enluaradas já se passaram desde aquela em que meu tio Quincas (Joaquim) Donato varou uma madrugada tocando uma Scandalli de 120 baixos na sala grande da Fazenda Gameleirinha, de outro tio meu, Celso Moraes, que não é mais o seu proprietário. A fazenda, agora, enfrenta um processo de urbanização iniciado na década de 1980, com a expansão do algodão no Vale do Iuiú, sudoeste da Bahia.

As terras, todas elas em perímetro rural na década de 1960, situam-se ao norte do aeroporto municipal, do qual estão separadas pela Avenida Governador Nilo Coelho, em uma faixa urbana da BR-030, rodovia radial que liga Brasília a Maraú, no litoral baiano. Trechos estratégicos desta extensa rodovia na Bahia ainda não foram construídos: entre Mirante e Boa Nova, passando pela BR-116, o leito é o natural; de Boa Nova a Aurelino Leal está em implantação.

Abro um espaço para registrar como o Sistema Viário Nacional classifica as rodovias federais. São cinco tipos. Um deles, o Radial, tem uma das extremidades em Brasília, ou em uma capital estadual, e zero como primeiro dígito (ex.: BR-030). Os outros são Longitudinal, que cruza o País no sentido Norte-Sul e tem 1 como primeiro algarismo (ex.: BR-116), Transversal, de Leste-Oeste e 2 é o primeiro dígito (ex.: BR-242), Diagonal, no sentido Noroeste-Sudeste ou Nordeste-Sudoeste e começa com 3 (ex.: BR-324) e de Ligação. Este último une estradas federais a uma localidade próxima, às fronteiras internacionais e, também, identifica as não-classificadas em nenhum dos outros tipos. Seu primeiro número é 4 (ex.: BR-401).

Agora, voltemos aos bailes na Fazenda Gameleira, ou toques, como preferia dizer minha avó Matilde Castro, tocadora de gaita-de-boca, ao se referir às noitadas alegres propiciadas pelo seu filho sanfoneiro. Ainda me lembro dos adultos dançando, cantando e se divertindo, enquanto meninos e meninas, entre os quais eu e minhas três irmãs, acomodávamo-nos em camas de madeira, com colchões estofados de algodão-de-seda, ou, então, nos aninhávamos nas dezenas de sacas de feijão e de milho empilhadas nos cantos da sala.

A dormência do corpo, o sono, o desconforto com roupas vestidas no início da tarde; nada disso nos incomodava. O som mágico da sanfona inebriava a todos. Rancheiras, toadas, arrasta-pés e valsas saiam daquele fole mágico, conduzido pelos dedos ágeis do meu tio que, vencido pela idade, já não toca mais. Isso me faz lembrar uma passagem no romance “Venenos de Deus, remédios do diabo”, do moçambicano Mia Couto, onde ele escreveu que as mãos, mais que o rosto, deviam ser preservadas dos sinais do tempo. Eu concordo, pois, tal qual o escritor, também penso que é nas mãos que nos iniciamos humanos. Das mãos, meu tio iniciou agricultor e tocador.

Eu pouco sabia de música, ou nada sabia, naqueles anos de festas na Fazenda Gameleirinha. Muito menos distinguia um gênero de outro; na minha concepção, uma música era bonita, ou era feia, para usar uma fala do criador do pagode de viola, o mineiro de Monte Azul, Tião Carreiro. Ele disse, segundo citação de Rosa Nepomuceno, no livro Música Caipira, da Roça ao Rodeio (Editora 34, 1999, pág. 342), que “música só tem dois tipos, a feia e a bonita”.

Meu tio Quincas executava bonitas modas. Mas, só com o tempo pude identificar alguns dos toques e perceber que das palhetas, dos teclados e dos botões da Scandalli saiam melodias que embelezavam polcas, baiões e xotes. E, também, um ritmo que só vim a distinguir anos mais tarde: o chamamé.

Onde e quando meu tio Quincas teria ouvido um toque do chamamé, que por muitos anos esteve restrito aos limites da província argentina de Corrientes, até romper as fronteiras dos Estados do Rio Grande do Sul e do atual Mato Grosso do Sul e atingir outras regiões brasileiras? Pode ser que ele não tocasse o chamamé, mas, a polca paraguaia, que, por essa época, já era ouvida, desde o início dos anos 1950, nas rádios brasileiras, mais ainda naquelas próximas às fronteiras com Paraguai e Argentina.

corrientes

Região de fronteiras, de Brasil, Argentina e Paraguai, onde o chamamé se espalhou, depois de surgir na província argentina de Corrientes.

Muitos sanfoneiros da região da Serra Geral, onde está localizado o município de Guanambi, na divisa com o norte de Minas Gerais, ouviam e copiavam o acordeonista ítalo-brasileiro Mário Zan (Mário João Zandomenighi, 1920-2006), que tocava polcas, guarânias e rasqueados.

O primeiro disco de Mário Zan foi gravado em 1944, um 78 rpm, pela Continental, que trazia a valsa Namorados, de sua autoria, e El Choclo, um tango argentino antigo, em ritmo de rancheira. O reconhecimento seria em 1948, com o tango-canção Segue seu Caminho, em parceria com Arlindo Pinto, e a valsa Belo Horizonte, de Anacleto Rosa Jr. e Arlindo Pinto.

O sanfoneiro ítalo-brasileiro Mário Zan

O sanfoneiro Mário Zan

No ano seguinte, obteve sucesso com os baiões Quixabeira, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e Juazeiro, de Humberto Teixeira e Cícero Nunes, a ponto de Gonzaga sugerir à RCA que contratasse o sanfoneiro para ocupar o seu lugar de solista na gravadora. É que o futuro rei do baião iniciava sua bem-sucedida experiência como cantor de suas músicas. E, em meio aos ritmos essencialmente nordestinos, o pernambucano também gravou mazurcas e polcas.

Alguns estudiosos defendem que a partir da polca paraguaia surgiu, no Mato Grosso, o rasqueado (ex.: Chalana, de Mario Zan e Arlindo Pinto), um ritmo igualmente ternário, porém com levadas mais rápidas do que a guarânia (ex.: India, de Manuel O. Guerrero e J. Assuncio Flores).

O Cantar da Seriema, de Zacarias Mourão, Nhô Victor e Nizio, gravada por Tião Carreiro e Pardinho em1963, em 78 rpm (do outro lado estava Geada do Paraná, moda campeira de Teddy Vieira), é uma polca paraguaia clássica, com solos de harpa. Em 1964, foi regravada no quarto LP da dupla, “Linha de frente”, onde o título está grafado “ciriema”.

A polca Serelepe, de Mário Zan, gravada por ele em 1947, também era uma das mais executadas pelos sanfoneiros. Em 1970, os jovens Chitãozinho e Xororó gravaram Galopeira (Galopera), polca do paraguaio Mauricio Cardozo Ocampo, em versão de Pedro Bento.

A polca, originária da Europa, teria sido introduzida na América do Sul pelos jesuítas, especialmente no Paraguai, onde o ritmo foi moldado e, no século XIX, desceu com as comitivas boiadeiras para a província de Corrientes, na Argentina. Aí, a versão paraguaia teve substituídos as harpas e os violões de ponteio por acordeões e os tradicionais bandoneons argentinos, e ganhou o nome chamamé, um termo cuja origem e explicação ainda puxam discussões. Os correntinos acrescentaram a declamação, que não há nem polca, nem no rasqueado, e o grito (sapukái).

Por conta do compartilhamento da mesma cultura nas três fronteiras (Brasil, Paraguai e Argentina), o chamamé entrou no Brasil pelos pampas gaúchos e chegou até a região pantaneira.

No último disco de Helena Meirelles, gravado ao vivo (Sapucay, 2002), em Campo Grande (MS), o acordeonista Zezinho Nantes toca os clássicos do chamamé El gato moro (Tarrago Ross) e El kanguy (Transito Cocomarolla), respectivamente, faixas 8 e 9, com a tradicional repetição do fraseado, sem alteração de volume, mas mantendo a ênfase da demarcação rítmica. Neste disco, quarto e último da violeira pantaneira, há ainda as polcas Cavalito e Água Parada, ambas de Helena Meirelles, com Zezinho Nantes tocando uma sanfona de oito baixos.

Em Guanambi, agora, já se ouvem chamamés. Ainda falaremos disso.

Com informações do livro “A arte de pontear viola (2000), de Roberto Corrêa, e, em 25/04/2009, do “Portal Tião Carreira” (http://www.tiaocarreiro.com.br), do sítio “Chamamé.com” (http://chamame.com.br) e do blog “Viola Chamacera” (http://viola-chamamecera.blogspot.com) e Fórum do Violão Brasileiro (http://brazilianguitar.net).

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