01.27.09
Companhia

São Miguel, de Guido Reni (1636)
Que lamento meu seria capaz
de, elevando-se aos céus,
acordar um anjo, um qualquer.
Um mensageiro, que dissesse,
- Aqui estou, alvissareiro,
trago-lhe o que su’alma requer.
Ou, então, que grito poderia
romper as tenebrosas brumas
deste meu caminho e despertar
alguma fada. Que me dissesse:
- Aqui estou, alvissareira,
trago-lhe porção do bem amar.
Ah!, anjos, fadas, magos
e todos querubins e serafins
que estão a ouvir meu grito.
De vós, qual vireis a mim dizer:
- Aqui estou, alvissareiro,
onde estiveres, eu fico.
01.24.09
Passos.Cap_6
Continuando com “Passos”
NO PERÍODO em que o professor Roberto Santos governou a Bahia, de 1975 a 1979, os estudantes secundaristas e universitários de Guanambi em Salvador fundaram o Centro Estudantil de Guanambi (CEG) e a Residência dos Estudantes de Guanambi (REG), apoiados pela administração municipal de Jonas Rodrigues da Silva. Participei da criação das duas entidades e atesto a presença ativa de ambas nas manifestações estudantis em Salvador no final da década de 1970, embora fossem pouco valorizadas em Guanambi.
Morei na REG desde a sua inauguração, na Rua Futuro do Tororó, em 1976, até fins de 1977, quando comecei a trabalhar como estagiário de Jornalismo na Redação de A TARDE e já podia pagar o aluguel de um apartamento, tanto que aluguei um quarto-e-sala na Rua Junqueira Ayres, no Edifício Junqueira Ayres, atualmente, defronte ao Shopping Lapa. A partir do CEG, com apoio dos que estavam na REG, os estudantes guanambienses também reagiram à ditadura militar, que já agonizava no governo do general João Batista Figueiredo (1979 a 1985).
As “Diretas-já”, com a eleição de Tancredo Neves, sepultam a ditadura militar, mas o processo de redemocratização do País somente se completou em 1988, no Governo José Sarney, com a promulgação da Constituição Cidadã. O Centro Estudantil de Guanambi ainda palpitava e muito clareou a mente dos estudantes locais, mas, nos anos seguintes, retraiu, a exemplo do que ocorria em todo o País com o Movimento Estudantil, que recolhera as armas, após a restauração da União Nacional dos Estudantes (Une).

Aspecto da plenária do Congresso da Une, no Centro de Convenções da Bahia
Eu já estava fora da sala de aula quando, nos dias 29 e 30 de maio de 1979, ocorreu o 31º Congresso da União Nacional dos Estudantes, no Centro de Convenções da Bahia, reunindo cinco mil participantes, dos quais 2.300 eram delegados de universidades de todo o País, segundo o Jornal da Bahia (1º de junho de 1979, página 3). O JBa registrou o pensamento dos estudantes sobre o encontro: “Uma vitória da classe estudantil brasileira, pois apesar das dificuldades, conseguimos deliberar sobre os quatro principais pontos da pauta: carta de princípios, estatutos, principais lutas e eleição a diretoria”.
Na época, o governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, que, paradoxalmente, havia cedido o Centro de Convenções (os organizadores se comprometeram a pagar as taxas de uso e entregarem o local nas mesmas condições em que receberam), disse que algumas propostas aprovadas no congresso se distanciavam um pouco dos assuntos estudantis, mas que outras poderiam ser assinadas por cidadãos de qualquer corrente de pensamento. Para os estudantes, no entanto, o que contava é que, após os dois dias de intensos debates, a Une fora reconstruída.
À Tribuna da Bahia (1º de junho de 1979, página 3), o estudante de Jornalismo e presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal da Bahia (DCE), Rui César, disse que o 31º Congresso da Une fora uma vitória e que sua realização não poderia ser melhor, “dada as condições que ainda se tem, politicamente, no País”. Ele respondia a autoridades do governo federal que se recusavam a reconhecer a legalidade da Une.
Rui César defendeu, na entrevista, ser a Une representativa e legítima por sua reconstrução pela maioria dos estudantes. “Dizer que uma entidade restabelecida com essas bases é ilegal, é não reconhecer o direito fundamental de todos os setores se organizarem”, declarou o até então presidente do DCE da Ufba, depois eleito dirigente máximo da Une para o período 1979-1980. A Une somente teria sua legalidade reconhecida pelo governo em 1985, um ano após a entidade estudantil participar da campanha “Diretas-já” e apoiar a candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República.

Passados 30 anos, estou certo que valeu a Viração
Em 16 de agosto de 1979, o presidente Figueiredo sancionou a Lei nº 6.680, tratando da relação entre estudantes universitários e a direção das instituições, ao tempo que revogava o Decreto-Lei nº 228, de 28/2/1967, o Decreto-Lei nº 477, de 26/2/1969, e os artigos 38 e 39 da Lei nº 5.540, de 28/11/1968, um diploma que fixava normas de organização e funcionamento do ensino superior, e que foi revogada pela nº 9.394, de 20/12/96, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, menos o artigo 16º, alterado pela Lei nº 9.192, de 21/12/95.
A Lei nº 6.680, de iniciativa do Executivo e editada no ano do congresso de reconstrução da Une, não reconhecia como legais os centros ou diretórios acadêmicos (CAs e Das), as uniões estaduais de estudantes (UEEs) e a união nacional dos estudantes. Conferia representatividade aos diretórios centrais dos estudantes (DCEs), mas não permitia que agissem fora do âmbito universitário, sob pena de extinção. Somente em 31/10/1985, com a Lei nº 7.395, a União Nacional dos Estudantes (Une), criada em 1937, retomou, legalmente, a condição de entidade representativa dos estudantes universitários do País.
Assinada pelo presidente José Sarney e o ministro da Educação Marco Maciel, a legislação revoga especialmente disposições contidas na Lei nº 4.464, de 9/11/1964, e na Lei nº 6.680, de 16/8/1979. Dessa forma, as uniões estaduais dos estudantes (UEEs) voltam a representar os universitários de cada Estado (incluindo DF e territórios), os diretórios centrais (DCEs) a representarem os estudantes de cada universidade nos Estados e os universitários retomam o direito de se organizarem em diretórios e centros acadêmicos (DAs e CAs).
Passados 30 anos, estou mais do que certo que valeu a Viração e que uma suave aragem ainda sopra meu rosto.
A elaboração deste texto foi possível graças ao material jornalístico sobre o Congresso da Une fornecido por minha amiga Nice Bittencourt, estudante de Ciências Sociais à época do encontro estudantil.
01.11.09
Responde, Guanambi

Prometeu acorrentado por Hefesto (1623), óleo sobre tela, 202x184cm, de Dirck van Baburen (1595-1624)
Para
Jaldo Cambui
Responde a mim, oh! Guanambi,
porque ser tão severa assim.
Quando censuras filhos teus,
diante de ti, vês filisteus.
Que queres mais
Que dêem a ti.
‘Inda tens pedra sobre pedra
e teu poder, pujante, medra.
Mas, até quando, paço meu,
serão teus filhos Prometeu.
Que queres mais
Que dêem a ti.
Responde a mim, cidade minha.
Quem lança a ti cal tão mesquinha,
sem dar-te paz. Mancha teu leito,
orna no berço o desrespeito.
Que queres mais
Que dêem a ti.
De que tu ris, de que tu ris?
A ti pergunto, oh! infeliz.
Então não vês, néscia cidade,
quão grande a messe. Já é tarde…
Que queres mais
Que dêem a ti.
Prepara a ceifa do porvir,
colhe o bom fruto para ti.
Junta teu povo, teu suporte.
Expulsa o mal que a ti envolve
Que queres mais
Que dêem a ti.
01.10.09
Lembrança

Na doçura dos seus lábios,
Na quentura do seu corpo,
Acendi minha paixão.
No aperto de seus braços,
Na brandura do seu rosto,
Esqueci minha razão.
Tudo foi tão de repente,
Flamejante qual o sol.
Um raio no amanhecer.
O leito, o banho, m’ia mente,
Envolvida em arrebol,
Se desmanchava em você.
Ainda choro Guanambi
“E quando chegou 
perto e viu a cidade,
chorou sobre ela
(Lucas, 19-41)”
Para
Hildevaldo Boa Sorte
Até quando, Guanambi,
Ainda chorarei por ti?
Acorda, minha princesa,
que o mau tempo está por vir.
Prepara já teu porvir,
retoma as tuas defesas.
Até quando, Guanambi,
Ainda chorarei por ti?
Recusastes os meus braços.
Por isso, muito sofri.
Mas a dor, ainda assim,
Não me corta nossos laços.
Até quanto, Guanambi,
Ainda chorarei por ti?
Sinto, bem perto, a tormenta,
Turbilhão que assusta a mim,
Enquanto, alegre, tu ris.
- A maldade, tu apascentas.
Até quando, Guanambi,
Ainda chorarei por ti?
Sabes o que é insone
em mim, tão a me afligir?
É o apartado dormir,
que tortura e me consome.
Até quando, Guanambi,
Ainda vou chorar por ti?
01.05.09
Tropas e viola (III)

Tropeiros e escravos em um pouso, onde um deles, ao fundo, toca um instrumento
Histórias do meu avô
A região da Serra Geral, na Bahia, onde está o município de Guanambi, tem toda ela, ao sul, como divisa, extensa porção norte do Estado de Minas Gerais, que foi uma porta aberta para a entrada da música resultante da mistura de ritmos europeus (brancos da zona rural) e africanos (escravos negros), trazida de São Paulo e Rio de Janeiro pelas tropas que alimentavam o comércio das minas auríferas. A viola poderia ter chegado a Guanambi por esta porta, ou vindo do recôncavo baiano, onde o samba de roda misturava música e dança.
Em seu livro “Música Caipira” (Editora 34, 1999), a pesquisadora Rosa Nepomuceno escreveu que os tropeiros levavam danças do Sul do País para outras regiões, e cita entre as quais o fandango, trazido pelos colonizadores, mas de origem árabe. Um dos destinos dessa dança foi Januária, cidade mineira na margem esquerda do Rio São Francisco, a cerca de 100 km da Bahia, de onde teria seguido para a região da Serra Geral com a denominação de marujada, uma manifestação de beira-mar.
A respeito do samba de roda, meu avô me disse, e eu li depois em livros sobre a origem da música brasileira, que surgiu no recôncavo baiano e se espalhou por várias partes do país, sendo forte também em Pernambuco e Rio de Janeiro. Nas rodas, conforme ele ouvira de tropeiros que conhecera, os quais passaram por Cachoeira, São Félix e Santo Amaro, o samba era tocado por um conjunto de pandeiro, atabaque, berimbau, chocalho e viola, na base de canto e palmas.
Anos depois é que melhor compreendi o que quis dizer meu avô no comentário “mais coisas do que você imagina”, quando falou da função dos tropeiros na propagação dos padrões de comportamento, de conhecimento, de crenças e de costumes no País, entre sertão e litoral, no período da Colônia (1500 a 1822); do Império (1822 a 1889); da Primeira República (1889 a 1930) e boa parte da Segunda República, iniciada em 1930.

O transporte era feito em lombo de mulas e jumentos
O papel desses comerciantes no funcionamento da economia, no desenvolvimento das atividades mineiras e no abastecimento do interior do Brasil, mais ainda nas regiões sem rios navegáveis, onde o transporte de produtos e bens só podia ser feito em lombo de animais, é destacado no livro “Uma história da vida rural no Brasil”, (Ediouro, 2006), de Mary Del Priore e Renato Venâncio. Os autores sustentam: “Funcionando como uma verdadeira correia transmissora de mercadorias, cartas, recados e informações, tropas e tropeiros durante mais de um século ligaram pessoas nos pontos mais divergentes da Colônia. A predominância desses comerciantes estendeu-se até a chegada do trem, na segunda metade do século XIX” (páginas 81 e 82).
Por “mais coisas”, meu avô esmiuçou, entendia-se viola, um instrumento de origem rural, como defende o professor e folclorista paulista Alceu Maynard de Araújo (1913-1974). Na Revista Sertaneja (1958), ele que cita a viola como, por excelência, “um instrumento musical do meio rural, sendo muito disseminada em nosso país, e encontrada nos mais longínquos rincões do sertão brasileiro”.
Este instrumento chegou ao Brasil na metade do século XVI, trazido pelos portugueses e padres jesuítas (leia Literatura da viola) e, ao longo do processo de colonização e desbravamento, sertanistas e bandeirantes carregavam-na a tiracolo. Igualmente, os tropeiros levavam uma viola, sempre dentro de um saco. “Meter a viola no saco”, que na linguagem informal é não ter resposta, seria, assim, ficar mudo, sem ação, na tropa.
À noite, sob a luz de fogueiras, para afastar animais e mosquitos, o violeiro tocava. O poeta Castro Alves (1847-1871) registra bem esse momento dolente com “Canção do violeiro”, no livro “Os escravos”, editado em 1880. Veja o primeiro verso da canção, seguido do refrão:
Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração ‘stá deserto,
‘Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
01.01.09
A viola

Para
Luciane Mafra (Ascom-TJ)
A viola, amiga, é assim,
por dizer, alguma coisa
que não sei bem entender.
Ciúme ela não sente,
mas provoca azedume
em quem gosta da gente.
Quem sabe, o despeito
da amada seja por crer
que, nos braços, apertada,
a viola torna impetuoso
a quem não mais consola.
E sofre de desgosto.
Talvez seja, não sei,
que de treita e serena,
ela nos braços se ajeita
e sossega o violeiro,
que assim se entrega
ao choro matreiro.
Sei é que ando preso,
cativo das cordas.
Hoje em dia não vivo
sem ouvir seu cantar,
e a ela faço sentir
meu viver, meu penar.