12.30.08

Tropas e viola (II)

Enviado em Viola tagged , , , , às 19:26 por ari donato

Histórias do meu avô

A MULA, ou besta, é um animal híbrido, resultado do cruzamento do jumento com a égua. Uma das principais características desse animal é a capacidade de carregar peso. Conduzida por tropeiros, uma besta transportava cargas que pesavam de oito a 12 arrobas (uma arroba corresponde a pouco mais de 14 kg), geralmente, por cinco a seis léguas em um dia, o que seria uma extensão perto de 40 quilômetros. Para cobrirem este percurso, os tropeiros andavam em média 12 horas seguidas, de um pouso a outro, disse certa vez meu avô, destacando a importância desses homens para a economia da região da Serra Geral, no sudoeste e parte do oeste da Bahia.

Tropeiros na Serra da Cantareira, em viagem para São Paulo (autor desconhecido)

Tropeiros na Serra da Cantareira, em São Paulo (autor desconhecido)

Nestas marchas, promovendo o abastecimento de vilas e arraiais e o intercâmbio e a comunicação entre as pessoas, as tropas marchavam cerca de quatro quilômetros por hora, a depender das condições da estrada. Documentos históricos registram que os donos de tropa cobravam $100 (cem réis) por arroba, a cada légua percorrida, e valores e formas diversificados pelas correspondências que conduziam.

Certa ocasião, enquanto falava-me dessas coisas, meu avô mostrou-me uma cédula de Cr$ 1,00 (um cruzeiro), que na paridade recebera o valor venal
de  $ 1.000,00 (mil réis), ao entrar em circulação, substituindo o dinheiro colonial. O real foi a primeira moeda cunhada no Brasil, por volta de 1693, em Salvador, capital da Colônia, e permaneceu em circulação até 1º de janeiro de 1942, quando foi implantado o cruzeiro.

Em um quarto de despejo, na casa do meu avô, dentro de um baú, havia dezenas de moedas de 5, 10 e 20 réis, todas de cobre, já sem valor de troca, com as quais eu brincava. As outras, dizia ele, as de ouro, que chegaram a valer 1.000, 2.000, 4.000, 10.000 e 20.000 réis, e as de prata, na progressão 20, 40, 80, 160, 320 e 640 réis, depois, 400, 500, 1.000, 2.000, 4.000 e 5.000 réis, haviam sido recolhidas ou negociadas na condição de metal.

Ele gostava de relatar fatos e de passar informações da época que vivera em meio aos tropeiros, coisas que eu, certamente, jamais ouviria falar, não fosse meu avô assim tão interessado em historiar. Quando ele me contou esses fatos, a atividade de tropeiro de há muito havia sido reconhecida e considerada uma profissão nobre. 

Moeda de prata de 1.000 réis, de 1869       Moeda de cobre de 20 réis
Moedas de prata, de 1.000 réis (1869), e de cobre, de 20 réis (1824), cunhadas pela Casa da Moeda do Rio de Janeiro.           

Os tropeiros sobre os quais ele falava percorreram as terras dos gerais, vindos do norte de Minas ou do Recôncavo baiano, comprando e vendendo alimentos, ferramentas, vestimentas e, no princípio, escravos. Eles se envolveram, também, e de forma empreendedora, no transporte do mineral do sertão para o litoral e, de lá, mantimentos e ferro para as regiões da mineração auríferas, onde a agricultura era pouco explorada.

Quando vim a ler em Caio Prado Júnior, anos depois, que sem o tropeiro o Brasil teria andado mais devagar do que andou, compreendi a importância das histórias do meu avô. Sem estradas regulares e longe da implantação da linha férrea, os tropeiros vadearam rios, adentraram veredas, durante quase 300 anos, entre os séculos XVII e XIX, no transporte e na comercialização de produtos e na intercomunicação no país.

A história registra que um estimulador da movimentação dessas tropas no Brasil foi a instalação pela Coroa Porguesa, em 1695, da Oficina Real dos Quintos, em Taubaté, vila paulista fundada em 1639, para onde estava sendo levado na ocasião todo o ouro extraído das minas gerais, depois transportado até o porto de Parati, para ser encaminhado à sede do reino, na cidade do Rio de Janeiro. Até o final da metade do século XX, em muitas regiões do País a tropa ainda era o único meio de transporte.

Diferentemente do que foi para os sertões acima do norte de Minas Gerais, seguindo o curso do curso do Rio São Francisco, o tropeiro no Sul do País estava ligado ao transporte do gado de corte, do Rio Grande do Sul até os mercados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. No geral, historiadores definem essa categoria profissional como sendo condutores de tropas, formadas de muares e cavalos, entre as regiões de produção e os centros consumidores, a partir do século XVII.

E mais o que levavam, perguntei certa vez. “Mais coisas do que você imagina, Davi”, respondeu meu avô.

Os tropeiros vadearam rios, adentraram veredas, durante quase 300 anos

Os tropeiros vadearam rios e adentraram veredas por quase 300 anos

Leia parte 3
Leia parte 1

2 Comentários »

  1. lucio pina almeida disse,

    sou filho de tropeiro esta historia me fes voltar ao pasado

  2. ari donato disse,

    Como você viu, sou bisneto de tropeiros, com muito orgulho. Um abraço.


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