12.19.08

Passos.Cap_5

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Manifestação em 1976, no centro de Salvador. No retângulo, em primeiro plano, à esquerda, de boina, Ruy Silva (depois presidente da UNE), Vandilson Costa (depois deputado estadual, pelo PCdoB) e Ari Donato

Manifestação em 1976, no centro de Salvador. No retângulo, em primeiro plano, à esquerda, de boina, Ruy Silva (depois presidente da UNE), Vandilson Costa (depois deputado estadual, pelo PCdoB) e Ari Donato

Continuando com “Passos”

EU ACABARA de entrar para o curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, em 1974, quando o general Ernesto Geisel (1909-1996) assumiu o governo federal, permanecendo na Presidência até 1979, ano em que receberia o diploma de bacharel em Comunicação.

Sua escolha, por um Colégio Eleitoral, ocorrera no dia 15 de janeiro, com o rádio e a televisão sob censura prévia, imposta pelo seu antecessor, general Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), e a posse a 15 de março, no mesmo dia em que o general João Batista Figueiredo (1918-1999) passa a chefiar o SNI (Serviço Nacional de Investigação).

Com promessas de realizar uma democratização gradual, lenta e segura, o general Geisel revogou medidas introduzidas pelo golpe do qual ele participara, entre as quais a censura prévia à imprensa escrita, o que permitiu a divulgação, por exemplo, da morte do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, ambas nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo, em circunstâncias semelhantes e a mesma versão oficial de suicídio.

Militando no Movimento Estudantil (ME), a partir de janeiro de 1975, eu sabia que diminuíra, sim, a pressão sobre os jornais, mas a vigilância nos meios de comunicação eletrônica e nos jornais alternativos continuava e somente seria extinta pela Constituição de 1988.

Na Capital baiana, com bandeiras específicas ou apoiando movimentos de oposição dos diversos segmentos da sociedade, os estudantes reagiam à situação, escudados no Movimento Estudantil, que a partir da metade da década de 1970 restabeleceria por completo suas forças, realizando protestos por todo o País na defesa de mais recursos para a universidade e do ensino público e gratuito.

Lutavam também pela União Nacional dos Estudantes (UNE), banida como representação estudantil nacional pela Lei nº 4.464, de outubro de 1964, e cuja restauração iria começar em maio de 1979, em Salvador, com o 31º Congresso, que elegeria um baiano, estudante de Jornalismo, para a presidência da entidade, a ser beneficiada com a volta à legalidade seis anos depois.

Em janeiro de 1979, em cerimônia simples na Diretoria da Escola de Comunicação, recebi meu diploma de bacharel em Comunicação. Assim, eu já estava fora da Universidade quando meu contemporâneo e companheiro da Comissão de Imprensa do Diretório Central dos Estudantes (DCE), de 1976 e 1978, Rui César Costa Silva, natural de Ipiaú, elegeu-se presidente da UNE (1979-1980), que na mesma década, mas na clandestinidade, fora dirigida por Jean Marc Van der Weid (1969-1971) e Honestino Guimarães (1971-1973).

Por conta dos agentes originários de suas ações, a maioria deles estudantes universitários pertencentes à chamada classe pequeno-burguesa, o Movimento Estudantil pode não ser visto como popular, mas, seguramente, tem caráter social e de massa, basta que se repassem as bandeiras das questões gerais, que iam da política à econômica, ou das específicas, de restabelecimento da autonomia das universidades e do direito de o estudante de participar da vida política do País.

Na mesma linha, a UNE ultrapassara a fronteira da representatividade estudantil e se transformara em uma das principais organizações da sociedade civil. Nos finais de semana, quando não estava em reunião ou participando da elaboração de pautas no DCE, eu lia sobre a história da UNE e de seus líderes. Fundada em 1937, e institucionalizada entidade representativa dos universitários brasileiros em 1942, pelo presidente Getúlio Vargas, tinha como objetivos básicos defender a democratização do acesso ao ensino superior, a qualidade de ensino e o financiamento público para as universidades.

Participou dos mais expressivos movimentos políticos, sociais e culturais do País, a exemplo da luta pelo fim da ditadura do Estado Novo, das campanhas em defesa do Petróleo e de combate ao regime militar e, mais recente, da resistência às privatizações do Governo FHC.

A história registra, e qualquer ex-militante tem conhecimento, que, no período antecedente ao golpe militar, a União Nacional dos Estudantes, ao lado de outras instituições brasileiras, formou a Frente de Mobilização Popular, na defesa de mudanças sociais para o País, dentre elas uma reforma universitária, nos moldes da que estava nas reformas de base propostas pelo Governo Jango, deposto em 31 de março de 1964 pelo golpe militar.

Essa identificação ideológica redundou na invasão e saque da sede da entidade, no Rio de Janeiro, no dia 1º de abril de 1964, e posteriormente em sua extinção, o que obrigaria os estudantes a ser reunirem na clandestinidade por mais de uma década, até a realização do histórico Congresso de Salvador, o primeiro depois do Congresso de Ibiúna (SP), em 1968, reprimido pela polícia, que prendeu mais de 700 pessoas, entre elas os líderes estudantis Luís Travassos, Vladimir Palmeira, José Dirceu e Jean Marc Von Der Weid.

Por indicação do presidente general Ernesto Geisel, o professor Roberto Santos (1926) governou a Bahia, entre 1975 e 1979, sucedendo a Antonio Carlos Magalhães (1927-2007), igualmente avalizado pelos militares, no governo do general Emílio Garrastazu Médici, para o período anterior, de 1971 a 1975. Era intenção de Antônio Carlos fazer seu sucessor, apontando para Clériston Andrade, mas o governo federal escolheu Roberto Santos, que havia correspondido às expectativas do regime militar no cargo de reitor da Universidade Federal da Bahia, entre 1967 e 1971.

Em paralelo, após quase um ano fora do poder, Antônio Carlos dirigiria a Eletrobrás, de 1975 a 1978, quando então retornaria para seu segundo mandato como governador do Estado, novamente por indicação do governo militar, para substituir a Roberto Santos, em uma transferência de poder de forma pouco civilizada, com ambos alimentando uma inimizade jamais desfeita.

O Governo Roberto Santos reprimia as manifestações estudantis com o uso da Polícia Militar. Participei dessas passeatas, algumas delas dissolvidas por policiais, que utilizavam cães e bombas de gás lacrimogêneo, como a que ocorreu no Tororó, em que a PM fechou a entrada do bairro e acuou dezenas de estudantes.

Uns foram acolhidos por moradores, que lhes abriam as portas das casas; outros fugiram pelo vale lamacento que havia onde hoje está a parte baixa da entrada da Estação da Lapa, descendo a Rua Marujos do Tororó, em direção ao Garcia. Não cheguei a ser detido durante a minha militância no Movimento Estudantil, nem me filiei ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ao qual muito me afinei.

Talvez, penso eu, por conta da formação Católica, que à época mantinha em mim forte ascendência, a ponto de me dificultar qualquer ligação com o materialismo explícito do marxismo que, por sua vez, também se distanciava do que eu aprendera sobre o caráter fundamental das necessidades materiais humanas. O que me causava simpatia no Comunismo era a esperança de este modelo de economia, não de política, vir como nas pregações apostólicas de São Paulo e São Pedro, nos moldes do Cristianismo histórico.

A ilusão se desfez logo, logo, e acabaria sepultada, na década de 1990, quando os primeiros desses líderes estudantis chegaram ao poder.

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