12.17.08
Lundu – II
Enviado em Texto tagged Domingos Caldas Barbosa, Isto é bom, lundu, pagode, samba, Xisto Bahia às 22:43 por ari donato

Outro aspecto da dança do lundu, registrado por Rugendas, desta vez em habitações de escravos, também no Rio de Janeiro
ANTES DE tomar a forma musical, o lundu era considerado indecente e impedido de ser mostrado nas ruas e teatros, tanto que até o final do século XVIII não era uma dança brasileira, mas um folguedo africano. Para alguns estudiosos, na condição de primeiro ritmo afro-brasileiro em formato de canção, o lundu seria, historicamente, o ponto de origem do samba, em um processo de avanços que envolveria, também, o maxixe, embora não haja um consenso entre os musicólogos.
Historicamente, o ritmo surgiu da fusão de elementos musicais de origens branca e negra, mas tem base na África, de onde veio, a bordo dos navios negreiros, na forma de dança. Depois, em meio ao sofrimento dos escravos, passou a canto, saltando de dança erótica para canção solo e, depois, para música de salão, tal qual aconteceria com blues, no início do século XIX, surgido do meio dos negros africanos levados para a América do Norte.
A dança, ora era branda, ora era selvagem. Mas, sempre executada ao som de batuques e toques e de viola, seguindo uma coreografia marcada pela umbigada e o requebrado dos quadris. A encenação era tão carregada de sensualismo que as autoridades da Corte, ao tomarem conhecimento das características, proibiram a dança. Assim está em “Cartas Chilenas”, de Tomás Antônio Gonzaga:
A ligeira mulata, em trajes de homens,
Dança o quente lundu e o vil batuque,
E, aos cantos do passeio, inda se fazem
Ações mais feias, que a modéstia oculta.
Meu caro Doroteu, meu doce amigo.
A Enciclopédia Barsa Cultural relaciona entre compositores na Bahia, do primeiro e do segundo impérios (1822-1889), Domingos da Rocha Muçurunga, autor de uma Artinha Muçurunga, e seu filho Zuzinha. Outros importantes, foram Chico Cardoso, José Pereira Rebouças, Damião Barbosa, Joaquim Silvério de Bittencourt e Sá, Maciel Tomé, Augusto Baltasar da Silveira e os padres Maximiano Xavier de Santana e Guilherme Pinto da Silveira Sales.
Mas, foi no Rio de Janeiro, na condição de capital federal, que lhe dava importância política, aliada à uma intensa vida teatral, como registra a Enciclopédia Barsa, que o lundu e a modinha ganharam as ruas do centro da cidade, já na fase pós-Xisto Bahia e algumas décadas antes de os dois ritmos recuarem na pauta da música brasileira, dando espaço para, mais tarde, florescer o samba, também com fortes raízes na Bahia, especialmente no Recôncavo.
Abaixo, a letra da primeira composição gravada em disco no Brasil, pelo cantor Baiano. Também gravaram mais tarde este lundu, dentre outros, Jorge Veiga, Nara Leão e a dupla Vitor da Trindade e Carlos Caçapava.
Isto é bom
(Xisto Bahia)
O inverno é rigoroso / já dizia a minha vó
quem dorme junto tem frio / quanto mais quem dorme só
Isto é bom
Isto é bom
Isto é bom que dói
A saia da Carolina /Custou-me cinco mil réis
Levanta a saia mulata / Que eu dou cinco e dou mais dez
Isto é bom
Isto é bom
Isto é bom que dói
Mulata levanta a saia / Não deixa a renda arrastar
Que a renda custa dinheiro / Dinheiro custa ganhar
Isto é bom
Isto é bom
Isto é bom que dói
Minha mulata bonita / vamos ao mundo girar
vamos ver a nossa sorte / que Deus tem para nos dar
Isto é bom
Isto é bom
Isto é bom que dói
Os padres gostam de moça / E os casados também
E eu como rapaz solteiro / Gosto mais do que ninguém
Isto é bom
Isto é bom
Isto é bom que dói
Iaiá você quer morrer / Quando morrer, morramos juntos
Que eu quero ver como cabem / Numa cova dois defuntos
Isto é bom
Isto é bom
Isto é bom que dói.