
O casal Cascatinha e Inhana, no final dos anos 1970
Entre 1967 e 1969, não me lembro bem; possivelmente 1968, Cascatinha e Inhana estiveram em Guanambi e se apresentaram em um circo. Da mesma forma que muitos outros cantores, dos mais diversos estilos, a dupla caipira se apresentava em picadeiros de circos por todo o País, e chegar ao sudoeste da Bahia, na divisa com o Estado de Minas Gerais, seria algo normal.
Assim, os paulistas Francisco dos Santos, Cascatinha (1919-1996), e Ana Eufrosina da Silva Santos, Inhana (1923-1981), já casados desde 25 de setembro de 1941, não tiveram dificuldades para cantar na região, de forte ligação com as manifestações culturais do norte mineiro. Estas, por sua vez, bastante afinadas com a música caipira, expressão máxima do sudeste brasileiro.
Essa música, como escreveu o jornalista José Hamilton Ribeiro no livro Música Caipira (São Paulo: Globo, 2006, Pág. 40), citando o pesquisador Zuza Homem de Mello, depois de gerada nos campos e grotões do centro-sul, passou a ser codificada e difundida a partir de um triângulo tendo por vértices as cidades paulistas de Piracicaba, Sorocaba e Botucatu.
Eu estava com idade entre 14 e 15 anos, enquanto que Cascatinha e Inhana contavam, respectivamente, com 49 e 45 anos, mais ou menos, e ambos mais velhos que os meus pais, que conheciam quase todo o repertório da dupla. Dessa forma, não me eram estranhas canções como Índia, Flor do cafezal, O menino do circo, Colcha de cetim, Meu primeiro amor e Colcha de retalhos.
Animados, descontraídos e comemorando 25 anos de carreira, eles falavam da sua epopeia, da passagem do Circo Nova Iorque, no qual Cascatinha trabalhava, pela cidade paulista de Araras. Foi quando se conheceram e ele daria a ela, à época uma cantora de jazz, o nome artístico de Inhana – corruptela de sinhá, tratamento usado pelos escravos para designar a senhora ou patroa (sinhá Ana). E eu me divertia com as pilherias que faziam, brincando com o público das arquibancadas.

Capa do disco 25 anos de amor, em 1967
– Esta parte do público, à minha direita, canta comigo; a outra, à esquerda de Inhana, canta com ela, e vamos ver quem de nós dois contará com o coro mais animado –, pediu Cascatinha. Em outro momento, Inhana separou o público feminino, para cantar com ela, do masculino, que acompanhou Cascatinha. Quem ganhou? Não me lembro, sei que foram muitas as risadas da dupla diante de um coro tão desafinado.
Aqui, abro um parêntese para a característica iconográfica dos grupos caipiras de manter o posicionamento do integrante mais velho em primeiro lugar, com os demais à sua esquerda, de modo que seu nome possa iniciar a formação, seja da dupla, trio ou quarteto. Às vezes a tradição era quebrada – a própria dupla Cascatinha e Inhana desrespeitou –, mas, na maioria dos grupos esta formação é mantida desde que Cornélio Pires (1884-1958) patrocinou a gravação em disco da primeira dupla caipira, em 1929.
Àquela época do show em Guanambi, Cascatinha e Inhana já possuíam extenso relato para fazer, uma longa jornada, que lhes colocava entre as melhores duplas caipiras em atividade. Eles brilharam ao longo de toda a década de 1940, ao lado de Tonico e Tinoco, Luizinho e Limeira, Carreirinho, Palmeira, o sanfoneiro Mário Zan e os compositores Anacleto Rosas Junior, José Fortuna e Lourival dos Santos. Registraram altas e baixas, mas fizeram sucesso até o final da década de 1970.
Aos 18 anos, quando deixou Marília para seguir com o Circo Nova Iorque, Cascatinha cantava canções e valsas românticas, tocava violão e bateria. Na época em que conheceu Ana Eufrosina, e já com o pseudônimo de Cascatinha, ele se apresentava ao lado do artista Chopp, no circo. A dupla se tornou conhecida em pouco tempo, transformando-se, em 1941, após o casamento de Francisco com Ana, no Trio Esmeralda.

No começo da carreira
O trio viajou para o Rio de Janeiro e foi premiado nos programas César Ladeira (Rádio Mayrink Veiga) e Manuel Barcelos (Rádio Nacional). Em 1942, Chopp deixou o grupo; Cascatinha e Inhana ingressaram então no Circo Estrela D’Alva, com o qual fizeram excursão pelo interior dos estados do Rio e de São Paulo. Fizeram shows em circos, em diversas cidades, e se apresentaram em programas de rádio.
Sobre a voz de Inhana, o violeiro e cantador mineiro Téo Azevedo disse à jornalista e pesquisadora Rosa Nepomuceno, no livro Música Caipira da Roça ao Rodeio (São Paulo: Editora 34, 1999, Pág. 147): “Sua afinação era impressionante”. Os dois cantavam em terça, como as duplas caipiras, mas a imprensa especializada destacava, na época, a facilidade com que Inhana “passa pelas notas agudas” e a “segunda voz” Cascatinha e chamou-os de “Os sabiás do sertão”.
Foi com os programas de rádio, especificamente na década de 1950, quando a dupla foi contratada pela Rádio Record, que Cascatinha e Inhana tiveram nomes e vozes levados até Guanambi, distante 1.458 km da cidade do Rio de Janeiro, então Capital federal. Eles ainda não haviam gravado disco, como ocorrera com Tonico e Tinoco, cantores da mesma época, em 1945.
Foi em 1951 que fizeram o primeiro, pela Todamérica: um 78 rpm que trazia a canção La Paloma (Iradier e Pedro Almeida) e a toada Fonteiriça (José Fortuna). No ano seguinte, já no quarto disco, gravaram as guarânias Índia e Meu primeiro amor, em versões de José Fortuna. A primeira, da composição de Maria Ortiz Guerrero e Jose Asunción Flores; a segunda, de Lejania (distância), de Hermínio Gimenez.

José Fortuna
Segundo o livro do jornalista José Hamilton Ribeiro (São Paulo: Globo, 2006, Pág. 36), este disco, em 1958, já havia vendido 500 mil cópias. A guarânia Índia foi gravada, também, por Dilermano Reis ao violão, Carlos Lombardi, Trio Cristas e Valdir Calmon e sua orquestra. Em 1973, Gal Costa regravou-a, dando nome a seu LP; em 2005, Roberto Carlos cantou para a trilha sonora da novela Alma Gêmea, da TV Globo.
Duas outras guarânias, em 1956, ajudaram a elevar o nome do casal: Recordações de Ipacaraí (Recuerdo de Ypacarai), de Zulema de Mirkin e Demetrio Ortiz, em versão de Juraci Rago, e Noites do Paraguai (Noches del Paraguay), de Samuel Aguayo e Pedro Jose Carles, versada por Nogueira Santos. As duas versões ficaram muito próximas do fraseado das originais paraguaias, o que não ocorreu em 1952, com José Fortuna, que, embora mantendo o lirismo da melodia, afastou-se da mensagem poética da letra.
Vejamos dois exemplos dessas versões. Abaixo, os primeiros versos de Lejania (distância), de Hermínio Gimenez (com tradução):
Lejano amor primero de mi niñez (distante amor primeiro da minha infância)
Como yo te adoro (como eu te adoro)
Lejano amor sublime ensueño azul (distante amor sublime, sonho azul)
Donde tu estas (onde você está)
Distante queda el recuerdo de aquellas tardes (distante eu recordo aquelas tardes)
De nuestro amor (do nosso amor)
Que acuden a mi memoria como el mensaje de un ruiseñor (que vêm à mente como a mensagem de um rouxinol)
Recuerdos que era mi alma (memórias que eram a minha alma)
Porque es triste hoy mi vivir (porque é triste hoje meu viver)
Por eso voy entonando este triste canto (por isso eu vou entoando esse triste canto)
De nuestro ayer (do nosso passado).
Agora, a tradução livre de José Fortuna, mas não menos melodiosa:
Saudade, palavra triste / Quando se perde um grande amor
Na estrada longa da vida / Eu vou chorando a minha dor
Igual a uma borboleta / Vagando triste por sob a flor
Seu nome sempre em meu lábios / Irei chamando por onde for
Você nem sequer se lembra / De ouvir a voz desse sofredor
Que implora por seu carinho / Por um pouquinho do seu amor.
O outro exemplo, da versão de Juraci Rago, para Recuerdos de Ypacarai (Recordações de Ipacaraí), de Zulema de Mirkin e Demetrio Ortiz:
Os versos iniciais da letra original, com tradução:
Una noche tibia nos conocimos (uma noite morna nos conhecemos)
Junto al agua azul de Ypacaraí (próximo à água azul de Ypacaraí)
Tú cantabas triste por el camino (tu cantavas triste pelo caminho)
Viejas melodías en guarani. (velhas melodias em guarani).
Y con el embrujo de tus canciones (e com o encantamento das suas canções)
Iba renaciendo tu amor en mi (ia renascendo seu amor em mim)
Y en la noche hermosa de plenilunio (e numa bela noite de lua cheia)
De tus blancas manos sentí el calor (de suas mãos brancas eu senti o calor)
Que con tus caricias me dio el amor. (e com suas carícias deu-me toques de amor).
Donde estás ahora cuñataí (onde está agora meu amor)
Que tu suave canto no llega a mi (deixe seu canto suave chegar a mim)
Donde estás ahora mi ser te añora (onde está agora, minha alma te deseja)
Con frenesi (com frenesi).
Veja a versão de Juraci Rago, mais próxima da letra, mantendo-se a palavra guarani cuñataí, que corresponde à expressão “meu amor”:
Numa noite linda eu te encontrei
Junto ao lago azul de Ypacaraí (um lago do Paraguai)
Tu cantavas triste, quando eu cheguei
Velhas melodias em guarani (língua oficial do Paraguai, ao lado do espanhol)
E foi tal o encanto que em mim nasceu
Que ia renascendo teu amor em mim
E um suave aroma nos envolveu
De tuas brancas mãos eu senti calor
Que com tais carícias me deu o amor.
Onde estás agora, Cunhataí (‘meu amor’, em guarani)
Que teu suave canto não chega aqui
Onde estás agora, meu ser te espera com frenesi
Vamos voltar aos discos de 78 rotações por minuto (rpm). Em 1958, Cascatinha e Inhana gravaram as guarânias Colcha de retalhos, de Raul Torres, e Nossa noite, versão de Serafim da Costa, da letra de José Alfredo Gimenez. Em 1963, em ritmo de guarânia, o bolero Fujo de ti, de Waldick Soriano e Jorge Gonçalves, e o rasqueado Felicidade, de Barrinha. Cascatinha e Inhana receberam em 1951 e 1953 o Prêmio Roquette Pinto.
Os últimos discos gravados pela dupla, antes da morte de Inhana, em 1981, foram: Dueto de amor (1970), Olhos tristonhos (1972), Olhos tristonhos (1972), Mensagem de artista (1976) – na oitava faixa deste disco, está a canção Eu quero apenas, de Roberto e Erasmo Carlos) – Dois Corações (1977), Casinha pequenina (1977),Cascatinha e Inhana, Edição limitada (1978), Cascatinha e Inhana (1979).
Alguns textos registram que o apelido Cascatinha, na época, marca de uma cerveja, foi dado formar dupla com o artista circense Chopp, marca de outra cerveja, mas Cascatinha não confirma. Em 1980, em entrevista ao apresentador Moraes Sarmento, no programa Viola Minha Viola, da TV Cultura, o cantor dá sua versão: ainda criança, quando residia na cidade de Garça (SP), recebeu o apelido por gostar de tomar banho em uma pequena cascata local.
Para o nome da companheira, também deu a versão, confirmada por ela no mesmo programa de televisão: para reforçar a imagem de dupla sertaneja, ele deu-lhe o nome Inhana, uma corruptela de sinhá (senhora) Ana, denominação muito comum dada pelos escravos às patroas.
Quando esteve em Guanambi, a dupla ainda comemorava o lançamento do primeiro LP (Long Player) gravado por eles, em 1967, pela RCA Camden: Vinte e Cinco anos de amor. Além dos clássicos de início da carreira, eles cantaram os destaques do LP, entre os quais Flor do cafezal, de Luís Carlos Paraná, A estrela que surgiu, de Zacarias Mourão e Mário Albanesi, e O menino do circo, de Eli Camargo.

Luís Carlos Paraná
Neste disco, destaca-se a toada Flor do cafezal, do cantor e compositor Luís Carlos Paraná (1932-1970), paranaense de Ribeirão Claro, que compôs outras belezas, como o samba Maria, carnaval e cinzas, com o qual Roberto Carlos classificou-se em 5º lugar no 3º Festival de Música Popular Brasileira, da TV da Record, em 1967, e gravado no disco San Remo 68, da CBS, lançado em 1976.
Luís Carlos Paraná foi lavrador até os 19 anos de idade, quando se transferiu para o Rio de Janeiro; trabalhou como comerciário e dividiu com João Gilberto um quarto em uma pensão. Tocou em várias boates cariocas, até se transferir para São Paulo, onde, por muitos anos, esteve à frente do famoso João Sebastião Bar, no centro da cidade. No início dos anos 1960, Chico Buarque fez ali a sua primeira apresentação em público.
Segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, ainda em São Paulo, o paranaense “abriu um barzinho onde recebia amigos para noitadas de violão, mais tarde, transformado na Boate Jogral, ponto de encontro de intelectuais, músicos, poetas e compositores, entre os quais, Paulo Vanzolini, com quem fazia porfias (desafios de moda de viola) no palco do bar.