10.15.09
A TARDE: 97 anos de circulação

Primeira página de A TARDE, de 1º de setembro de 2008
Hoje, 15 de outubro de 2009, o jornal A TARDE está completando 97 anos de circulação, quase um século de publicações ininterruptas, sempre tendo em pauta os interesses do Estado da Bahia e da sua população. Mesmo que em certas ocasiões, na condição de unidade de uma empresa, sua Redação enfrentasse caminhos difíceis, dolorosos, que colocavam em xeque os seus profissionais.
Orgulho-me, não me envergonho em dizer que nesses quase 100 anos de jornalismo praticado por A TARDE, em que a ética continua a ser um lume, caso se possa traçar uma linha de interseção, a minha presença preencheria um terço do tempo gasto com a feitura do jornal até o dia 1º de setembro de 2008, quando desliguei-me, por decisão própria, da Redação.
Entrei para A TARDE no dia 1º de novembro de 1977 na condição de repórter estagiário, pois somente completaria o curso de Jornalismo, pela Universidade Federal da Bahia, em dezembro de 1978. A promoção viria em novembro de 1979, para Repórter de Setor, categoria B, numa escala progressiva de C a A. Desliguei-me do jornal na condição de Editor categoria A, pela mesma escala.
Como não sentir orgulho de, ao olhar para o caminho que percorro no Jornalismo, divisar esta escola fabulosa, este reduto de grandes homens e mulheres, profissionais de alto quilate, com os quais convivi mais da metade da minha idade até a presente data. Tem A TARDE 97 anos, tenho eu 56 anos; estaríamos um para o outro, na condição de avó e neto. Ainda sinto os afagos da sua Redação, jamais deles me esquecerei…
Ouso citar o poeta Olavo Bilac: Se hoje sou venturoso, devo ao trabalho o que sou! E devo, também, aos que estiveram ao meu lado nesta longa jornada de 31 anos, dentro da existência já quase centenária de A TARDE. Tantos os da minha época pioneira no Jornalismo, quanto os dos tempos mais contemporâneos, da Redação moderna, informatizada, congratulo-me com todos.
Aos que permanecem, sigam em frente, o caminho foi aberto por jornalistas que sabiam o que queriam e, principalmente, sabiam o que faziam. Que Deus continue a abençoar esta casa!
09.03.09
Sérgio Reis: o peão violeiro

Almir Sater e Sérgio Reis formaram a dupla caipira (fictícia) Pirilampo e Saracura, na novela O Rei do Gado
Em uma manhã de outono, em 1967, ouvi pela primeira vez os acordes da balada “Coração de papel” e a voz de Sérgio Reis (1940) ampliados pelo alto-falante do Cine-Teatro Sorbone, na cidade de Guanambi, 800 km a sudoeste de Salvador, já na divisa com Minas Gerais. Embalados pela Jovem Guarda, meus ouvidos se renderam à bela melodia, que ainda ecoa tal a forma com que grudou em meu subconsciente.
“Coração de papel” saíra em dezembro de 1966, pela Odeon, em um compacto simples de vinil que tinha do outro lado “Fim de sonho”; duas composições de Sérgio Reis. A balada, que teria sido feita para Ruth, musa inspiradora e depois a esposa, foi relançada em fevereiro de 1967, em um compacto duplo, ao lado de “Fim de sonho”, “Nuvem branquinha” e “Qual a razão?”, todas da sua autoria.
Mas, o compacto de 1966 não foi o primeiro disco de Sérgio Reis, cuja carreira de cantor começara na Zona Norte paulista, aos 16 anos, com apresentação em programas de rádio e casas noturnas e o nome artístico Johnny Johnson. A estréia ocorreu em agosto de 1961: um 78 RPM pela Chantecler com o bolero “Enganadora”, de Umberto Silva-Souza Lima-Luiz Mergulhão, e a balada “Será”, de Waldemar Espinosa Garcia.
Em março do ano seguinte, ainda na Chantecler, ele gravou o segundo disco da sua carreira: outro 78 rotações por minuto (RPM) que trazia “Lana”, rock de Roy Orbison-Joe Melson, na versão de Carlos Alberto, e “Porque sou bobo assim”, versão de Oswaldo Scaldelay-Jair Fernandes Leggieri da canção “Part of a fool”, de Keller-Hunter.

A dupla caipira Luisinho e Limeira
O primeiro disco de vinil de longa duração (LP) viria em agosto de 1967, intitulado “Coração de papel”, com oito das 12 canções assinadas por ele. As outras, por Eduardo Araújo, Geraldo Nunes, Marcos Roberto e Dori Edson, e uma versão de “Here, there and everywhere”, de Lennon-McCartney, do álbum “Revolver” (1966), feita por Fred Jorge como “Amor, nada mais”.
Cabe aqui uma informação histórica sobre o armazenamento de áudio: começou no início do século XX com os discos de 78 rotações por minuto; única forma até 1948, quando surgiria a chapa de vinil, mais leve, mais resistente e mais tempo de gravação. No Brasil, o 78 RPM duraria até 1969: o disco de vinil seria substituído a partir do final dos anos 1980 pelo CD digital (em inglês compact disc), de pequenas dimensões, mas grande capacidade de armazenamento.

O compositor Goiá, homenageado
O mercado fonográfico brasileiro movimentou três tipos básicos de disco de vinil. O maior deles, o LP (abreviatura inglesa de Long Play), executado na velocidade de 33 1/3 rotações por minuto, tem diâmetro de 31 cm (12 polegadas) e armazena cerca de 20 minutos de dados (música) em cada lado, chegando a conter até 14 canções no total.
Os vinis foram produzidos ainda em dois outros formatos: o compacto duplo, ou EP (do inglês Extended Play), medindo 17 cm de diâmetro (7 polegadas). Sua duração de 16 minutos, rodado na velocidade de 45 rotações, comporta duas músicas de cada lado; o outro, chamado de compacto simples, ou Single Play (SP), também de 17 cm e tocado a 33 1/3 rotações, dura até oito minutos, com uma música de cada lado.
Por esta ocasião, quando os discos de vinil transformavam as velhas bolachas de 78 RPM em peças obsoletas, o movimento musical Jovem Guarda, que abrira espaço para Sérgio Reis e dezenas de outros cantores jovens, perdia seu principal agente: Roberto Carlos, que migrara para uma nova esfera, a partir do Festival de San Remo de 1968, na Itália, de onde voltaria distanciado do movimento musical criado em 1965.

Sérgio Reis no estúdio de gravação
Em 1969, com os últimos acordes das jovens tardes de domingo, Sérgio Reis lançou o LP “Anjo Triste”, mas sem o sucesso anterior, que voltaria cinco anos depois do estouro de “Coração de papel” com a balada “O menino da gaita”, gravada em 1972: uma versão do próprio Sérgio da canção “El chico del armônica”, do espanhol Fernando Arbex (1941-2003). O sucesso levou-o ao programa Globo de Ouro, da Rede Globo.
Ainda garoto, Sérgio acompanhava o programa de rádio “Na beira da tuia”, apresentado pela dupla caipira Tonico e Tinoco, da qual se tornou admirador, a ponto de pedir e ganhar do seu pai, o paulistano Erico Bavini (a mãe, Clara Reis Bavini, era carioca), uma viola. Com o instrumento, conheceu alguns acordes e tirou os primeiros sons musicais: sua ligação com a música sertaneja, e por extensão a caipira, vem desde esse tempo.
A afinidade, embora sufocada pela forte influência do rock e das baladas de Elvis Presley, esteve sempre latente, tanto que Sérgio Reis entrou para a Chantecler, em 1958, para gravação do seu primeiro disco pelas mãos do produtor Palmeira (da dupla caipira Palmeira e Biá) e Teddy Vieira, coordenador da área sertaneja e compositor de músicas caipiras. Eles procuravam um cantor de boleros para a gravadora e aprovaram Sérgio.
De modo que quando o movimento da Jovem Guarda se desfez Sérgio Reis seguiu pelas trilhas do sertanejo e, em 1972, viajou pelo interior do País, realizando shows; retomou o contato com a música caipira e entre os clássicos do repertório estava “O menino da porteira”, composição de Teddy Vieira e Luizinho, gravada em 1955 por Luisinho e Limeira, pela RCA Victor.
Sempre aplaudida quando cantada nos shows, a canção animou Sérgio Reis a ponto de gravá-la em 1973 em compacto simples pela RCA Victor, que tinha do outro lado “Eu sei que vai chegar a hora”, de sua autoria. No arranjo de Élcio Alvarez para “O menino da porteira” aparece a guitarra do tempo do iê-iê-iê, mas que não descaracterizara a batida do cururu, do interior paulista. A partir daí, Sérgio passou a interpretar a música caipira com inovação instrumental.
Também em 1973, ele gravou o disco intitulado “Sérgio Reis”, com viés sertanejo, mas ainda com marcas da Jovem Guarda, embora trouxesse as canções “O menino da gaita” e “O menino da porteira”. Os dois álbuns seguintes sacramentaram a presença de Sérgio Reis na música sertaneja: em 1974, pela RCA, com o título de “João de Barro”; em 1975, “Saudade da minha terra”. Este último deu-lhe o Disco de Ouro (100 mil cópias vendidas).
Em 1975, quando a Jovem Guarda completava 10 anos do seu surgimento, Sérgio Reis já se afastara para cavalgar pela estrada de Ouro Fino. Ele entrou de vez no sertanejo e continua até os dias de hoje. Assim, em 1977, interpretou o boiadeiro no filme “O menino da porteira”, de Jeremias Moreira Filho, re-filmado rodado este ano com Daniel no papel do boiadeiro. Em 1978, voltou a cinema, no filme “Mágoa de Boiadeiro”, dirigido por Venceslau M. Filho.
Dados cronológicos
1982 – Participa da novela “Paraíso”, da Rede Globo.
1982 – Faz o terceiro filme, “Filho adotivo”, dirigido por Deni Cavalcanti.
1982 – “O Melhor de Sérgio Reis” vende mais de 1 milhão de cópias.
1983 – Grava “Panela Velha”, de Moraezinho-Auri Silvestre.
1987 – Grava “Pinga ni mim”, de Elias Filho.
1990 – Participa da novela “Pantanal”, da TV Manchete, ao lado de Almir Sater.
1991 – Começa o programa de rádio “Siga bem caminhoneiro”.
1996 – Participa da novela “O Rei do Gado”, da Rede Globo, formando com Almir Sater a fictícia dupla “Saracura e Pirilampo”.
1997 – Programa “Sérgio Reis do Tamanho do Brasil”, na TV Manchete.
1997 – Grava com Helena Meirelles o samba “Guiomar”, de Haroldo Lobo e Wilson Batista, no CD “Raiz Pantaneira”, da violeira, produzido por Tony Campello para a Gravadora Eldorado.
1999 – Programa “Sérgio Reis”, no SBT.
2000 – Lança “40 Anos de Estrada”, caixa de cinco CDs em que recapitula sua carreira.
2000 – “Melhor Álbum Sertanejo”, na primeira edição do Grammy Latino.
2001 – “Nossas Canções”, com composições de Roberto Carlos.
2001 – Em Ouro Fino (MG) tem as mãos imortalizadas em monumento que marca os 252 anos da cidade.
2002 – Sofre um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e inicia tratamento.
2003 – Exames mostram que se livrara da ameaça de um novo AVC.
2003 – Grava ao vivo do CD e DVD “Sérgio Reis & Filhos – Violas e Violeiros”.
2005 – Programa “Terra Sertaneja”, na TV Bandeirantes.
2006 – Volta, ao lado de Almir Sater, a participar da novela “Bicho do Mato”, pela Record.
2006 – Após três anos sem gravar um disco inédito, lança o CD “Sérgio Reis – Tributo a Goiá”, em homenagem ao compositor Gerson Coutinho da Silva (1935-1981).
2008 – Lança o disco “Coração Estradeiro”.
2009 – Lança o disco “50 anos Cantando o Brasil”, caixa com quatro discos.
Conforme o site do cantor Sérgio Reis, estes são os seus lançamentos e coletâneas, ao longo da sua carreira, sem contar os compactos e as participações especiais.
2009/50 Anos Cantando o Brasil
2008/Coração Estradeiro
2006/Tributo a Goiá
2003/Sérgio Reis e Filhos Violas e Violeiros
2003/O Divino Espírito do Sertão
2002/Sérgio Reis-Nossas Canções
2001/Sérgio Reis-100 Anos de Música
2000/Sérgio Reis
2000/Sérgio Reis & Convidados
2000/40 Anos de Estrada
2000/Sérgio Reis-Dose Dupla
2000/Jovem Guarda-Série Bis
1999/O Melhor de Sérgio Reis
1999/O Essencial de Sérgio Reis
1999/Popularidade
1998/Essencial
1998/Sérgio Reis do Tamanho do Brasil
1998/Sérgio Reis Coleção JT
1997/Boiadeiro
1997/Vida Violeira
1996/O Rei do Gado
1996/Marcando Estrada
1995/Os Originais-Sérgio Reis/Coração de Papel
1995/Grandes Sucessos
1994/Ventos Uivantes
1993/Sérgio Reis Acervo Especial
1993/Sérgio Reis
1991/Sérgio Reis/O Rapto
1990/Pantaneiro
1989/Sérgio Reis
1988/Sérgio Reis
1987/Sérgio Reis/Pinga ni Mim
1985/O Melhor de Sérgio Reis Vol. 2
1985/Sérgio Reis/Trem do Pantanal
1984/Sérgio Reis/Adeus Mariana
1983/Sérgio Reis/Panela Velha
1983/Disco de Ouro
1982/A Sanfona do Menino
1982/Os Grandes Sucessos de Sérgio Reis
1982/O Melhor de Sérgio Reis
1981/Boiadeiro Errante
1980/Disco de Ouro
1980/Sérgio Reis/Lobo da Estrada
1979/Sérgio Reis
1978/Natureza
1978/Mágoa de Boiadeiro
1977/Relaciones Internacionales
1977/O Menino da Porteira
1977/Sérgio Reis-Disco de Ouro
1976/Retrato do Meu Sertão
1975/Saudade da Minha Terra
1974/Sérgio Reis em Espanhol (promocional)
1974/João de Barro
1973/Sérgio Reis
1969/Anjo Triste
1967/Coração de Papel
1961/Primeira gravação, em disco Chantecler (78-0503), em agosto, com orquestra sob regência de Élcio Alvarez, com as canções: Enganadora (Umberto Silva-Souza Lima-Luiz Mergulhão) e Será (Waldemar Espinosa Garcia).
Veja mais informações no site de Sérgio Reis
08.30.09
Década servil

Tocador de alaúde, de Michelangelo Merisi da Caravaggio (1573/1610)
Sete anos de pastor Jacob servia – Camões (1595)
Quadrou sete anos Jacó de pastor
a Labão, pretendendo sua filha.
Mas, ignora o poeta minha lida;
sirvo mais, há dez anos, ao amor.
Passado tanto tempo, dia após dia,
perdi as esperanças de ter comigo
minha amada. E o pastor ganha de premio,
não só Raquel, também sua irmã Lia.
Esta, de olhos tristes, era mais velha.
Raquel, mais moça, formosa de porte,
ateou a Jacó a chama da vida.
E mais ele então serviu para tê-la.
Quanto a mim esta década sem sorte,
mesmo que igual eu faça, foi perdida.
(Repostagem-Dez/2008)
08.19.09
O sertanejo na obra de Roberto Carlos

Roberto Carlos: afinidade com o sertanejo
Roberto Carlos (1941), principal líder do movimento Jovem Guarda (1965-1969) e artista latino-americano que mais vendeu discos no Mundo até o momento, sempre acalentou o desejo de gravar um álbum com músicas sertanejas. Sertanejas, não caipiras.
A diferença entre uma e outra, escreveu o jornalista José Hamilton Ribeiro (Música Caipira, Editora Globo, p. 32, 2006), citando o musicólogo Zuza Homem de Mello (1933), está em que sertanejo é o “gênero” e caipira é a “espécie”. Desse modo, comparativamente, tomando os macacos como exemplo: todos são primatas (gênero), apenas alguns são chimpanzés (espécie).
Sertanejo, digamos assim, é uma qualificação geral da música rural brasileira; é mais ampla, mais abrangente e traz no seu bojo os diversos ritmos que há no País, entre os quais o caipira, contemporaneamente denominado música raiz, que canta o modo de vida do homem interiorano em oposição à vida do cidadão urbano. O baião, o forró e outros ritmos (espécie) do Norte e Nordeste, por exemplo, são, igualmente, sertanejos (gênero).
Sempre entusiasmado com o que tem ouvido desde os nove anos de idade, época em que se apresentou pela primeira vez em público, cantando o bolero “Amor y más amor” (J.Remignard – R.Baud – B.Capo), na cidade de Cachoeiro do Itapemirim (ES), onde nasceu, Roberto Carlos jamais deixou de atualizar seu trabalho. Um dos seus ídolos de infância foi Bob Nelson (1918-2009), que cantava versões aportuguesadas da música country, estilo rural norte-americano; ele ouvia os sanfoneiros Luiz Gonzaga (1912-1989) e Pedro Raimundo (1906-1973) e a dupla caipira Tonico (1917-1994) e Tinoco (1920).
Nos tempos da Jovem Guarda, sofreu influência de Elvis Presley e Beatles; antes, se inebriava com as canções de Nelson Gonçalves (1919-1998), Alberto Fortuna (1922-1995) e Tito Madi (1929), daí seu trabalho apresentar ao longo desses 50 anos de carreira uma variedade de ritmos, todos, sistematicamente, conforme seu próprio gosto musical, que é marcado por alterações gradativas.
O conjunto da obra de Roberto Carlos avaliza que a música, presente na evolução cultural dos povos, é produto de aprendizagem contínua. A respeito de cultura, o antropólogo britânico sir Edward B. Tylor definiu, em 1871, como o conjunto dos “conhecimentos, das crenças, dos costumes, dos valores e de qualquer outra prática ou hábito adquirido pelos homens e pelas mulheres como membros de uma sociedade”. (Enciclopédia Barsa Universal, Editora Planeta, p.1728, 2007).
A melodia de “As Curvas da estrada de Santos” (1969), “Jesus Cristo” (1970) e “Todos estão surdos” (1971), por exemplo, foi composta no período em que ele se dizia influenciado pelo soul – gênero musical surgido nos Estados Unidos entre as décadas de 1950 e 1960. Outro ritmo entre os muitos que gravitavam ao redor deste compositor de forte viés romântico é o fox, usado como padrão rítmico, por exemplo, nas canções “Música suave” (1978) e “Emoções” (1981), reconhecidamente das mais expressivas que ele gravou.

A dupla sertaneja Chitãozinho e Chororó, em um especial de final de ano de Roberto Carlos.
Por conta dessa busca de variedades, dois dos programas televisivos de final de ano de Roberto Carlos contaram com participação das duplas Zezé di Camargo e Luciano (1984) e Chrystian e Ralf; Chitãozinho e Xororó (1986), expondo a afinidade do compositor com o estilo sertanejo, fortalecida em 1992 com a gravação de “Dizem que um homem não deve chorar”, cantado em ritmo de bolero, mas, de origem, um rasqueado de autoria de Palmeira (1918-1967) e Mário Zan (1920-2006) intitulado “Nova flor”.
Na verdade, ele e seu parceiro Erasmo Carlos (1941) passaram para o português a versão espanhola de Pepe Ávila (“Los hombres no deben llorar”), esta por sua vez originária da letra inglesa de Arthur Hamilton (“Love me like a stranger”), a mesma que é cantada pelo grupo vocal norte-americano The Letterman na trilha sonora internacional da novela “Pecado Capital”, da TV Globo, de 1976.
A relação de Roberto Carlos com a música sertaneja reaparece com a toada “O velho caminhoneiro”, no álbum de 1993, composta nos padrões da moda de viola: versos de sete sílabas, rimas nos versos pares e estrofes oitavadas. Não chega a ser uma obra de arte, da mesma forma que também não o são suas tentativas seguintes em compor canções sertanejas para um desejado disco do gênero que acabou não saindo do projeto. Mas, inegavelmente, a afinidade do compositor e do intérprete com o estilo ficou mais forte. Em 2006, no CD e no DVD “Duetos”, ele volta com a dupla Chitãozinho e Xororó, cantando “Amazônia” (de 1991) e os cantores Sérgio Reis e Almir Sater na moda de viola “O rei do gado” (Teddy Vieira), gravada em 1996.

Sérgio Reis com o violão, Roberto Carlos com a voz, e Almir Sater com a viola
No princípio de 2000, Roberto chegou a iniciar a concepção do almejado disco sertanejo: tinha quatro canções escolhidas, uma delas inédita, mas suspendeu o projeto (sua mulher, Maria Rita, falecera em 19 de dezembro de 1999). A lista foi guardada e em 2005 as quatro canções: “Arrasta uma cadeira”, “O baile da fazenda”, “Coração sertanejo” e “Índia”, ao lado de “Promessa”, “A volta”, “O amor é mais”, “Meu pequeno Cachoeiro” e “Loving you”, diametralmente opostas, saíram no álbum anual, que ele dedicou a Maria Rita.
Em “Índia” (Manuel Ortiz Guerrero-J. Asuncion Flores, versão de José Fortuna) Roberto não perde para os tradicionais intérpretes desta histórica guarânia: ele havia gravado esta música no disco da trilha sonora nacional da novela “Alma Gêmea”, da TV Globo (2005). Neste que seria o disco sertanejo da sua carreira, ele dá uma interpretação própria, intimista, em “Coração Sertanejo” (Neuma Moraes e Neon Moraes), justamente um sucesso de Chitãozinho e Xororó em 1996. Em “O baile da fazenda”, um arrasta-pé gravado em de 1998, com participação do sanfoneiro Dominguinhos, retorna aqui em ritmo country.
A faixa inédita do disco, “Arrasta uma cadeira” (Roberto e Erasmo Carlos) é também uma guarânia, cantada com a dupla Chitãozinho e Chororó, que se junta aos esforços de Roberto Carlos em trazer a música sertaneja para o conjunto da sua discografia. Um trabalho que pode não ter surtido o resultado que todos esperavam e Roberto Carlos talvez não tenha se sentido de todo satisfeito, mas, suas investidas trouxeram benefícios para a canção sertaneja. Pode-se não gostar, mas não se pode negar.
Veja a letra da toada “O velho caminhoneiro”, de Roberto e Erasmo, gravada em 1993.
O velho caminhoneiro
comandante das estradas,
debaixo daquele toldo
já são tantas toneladas.
Histórias, experiências
por detrás de um pára-brisa,
tanta coisa que machuca,
mas o tempo cicatriza
Existe em algum lugar,
numa curva do caminho,
uma ponta de saudade
de quando ele era mocinho.
Reduz a velocidade
e lembra da namorada,
que ficou no seu passado
na poeira de uma estrada.
Já pegou pelo caminho
chuva fina e tempestade,
asfalto, terra molhada,
lamaceiro de verdade.
No inverno ele se abriga,
no verão abre a camisa.
Pronto pra qualquer parada
porque o tempo não avisa.
Seu coração viaja em paz,
carregado de emoção demais, demais.
Dia, noite, madrugada ele sai,
não tem hora de partida.
No caminhão o que ele trás
é a coragem que ele tem, que é sempre mais.
Pulso firme no volante em frente vai
pela estrada e pela vida.
Na solidão da boléia
ele pensa na família,
na mulher à sua espera
e um leve sorriso brilha.
Olha o céu e olha a estrada,
acelera e vai embora.
No painel tem São Cristóvão,
Jesus e Nossa Senhora
Seu coração viaja em paz
carregado de emoção demais, demais.
Dia, noite, madrugada ele sai.
Não tem hora de partida,
no caminhão o que ele trás
é a coragem que ele tem, que é sempre mais.
Pulso firme no volante em frente vai
pela estrada e pela vida.
Seu coração viaja em paz,
carregado de emoção demais, demais.
Dia, noite, madrugada ele sai,
não tem hora de partida.
No caminhão o que ele trás
é a coragem que ele tem, que é sempre mais.
Pulso firme no volante em frente vai
pela estrada e pela vida
Seu coração viaja em paz
carregado de emoção demais, demais.
Além das fontes já citadas, serviram de base de consultas as seguintes publicações: Enciclopédia da Música Sertaneja (Publifolha, 2000), Roberto Carlos, Obra Completa (Beth Cançado, editora Corte, 1997), Aquarela Sertaneja (Beth Cançado, Editora Corte, 1998), Portal Clube do Rei e Site Oficial Roberto Carlos, ambos entre os dias 17, 18 e 19 de agosto de 2009.
07.21.09
Viola: se afina ou se tempera?
Minha intenção aqui é falar de uma característica da viola caipira, que, no Brasil, é composta de dez cordas, elas todas distribuídas em cinco ordens de duplas e afinadas das mais diversas formas, uma das peculiaridades desse instrumento. O violeiro, compositor e pesquisador mineiro Roberto Corrêa (Campina Verde, 1957) relaciona 14 variações no livro “A arte de pontear viola”, editado em 2000.

Viola de 10 cordas: cinco ordens de duplas
Segundo ele algumas dessas afinações são raramente usadas e outras estão espalhadas pelo País. Em suas pesquisas de campo encontrou violas com 12, nove, oito, sete e cinco cordas, sempre dispostas em cinco ordens. Os repentistas do Nordeste, por exemplo, tocam viola com sete cordas, sendo que as quatro primeiras ordens são singelas (uma corda cada) e a quinta ordem tem três cordas. Há no Brasil entre 20 e 25 afinações aplicadas à viola.
Outro instrumento de corda, o violão, que passou a ser conhecido entre nós a partir de 1830, séculos após a chegada da viola, se apresenta com seis cordas e tem uma única afinação, universal, assentada nas notas Mi (E), Si (B), Sol (G), Re (D), Lá (A) e Mi (E). As guitarras elétricas seguem a mesma afinação e o violão de 7 cordas igualmente, mas com o acréscimo de mais uma, afinada em C, podendo, também, ser em B ou D.
O violão de 7 cordas está presente no choro e no samba; lá fora, no acompanhamento, como solista, em músicas de câmara e de concerto. Tem origem incerta e muitos creditam aos ciganos russos sua introdução no Brasil, mas, certo mesmo, é sua entronização na MPB pelos cariocas Tute (Arthur de Souza Nascimento, 1886-1957) e China (Otávio Vianna, 1891-1928), o irmão mais velho de Pixinguinha.

Veja no cavalete, e sobre o rastilho, as sete cordas do violão
Há ainda o violão de 12 cordas, que alguns chamam de “viola de 12 cordas”, mesmo a sua afinação seguindo a do de seis cordas, com os dois primeiros pares uníssonos e os outros quatro oitavados. A diferença entre este instrumento e a viola de 12 cordas é que, no caso desta, as cordas estão em cinco ordens (pares): as duas últimas, de baixo para cima, com três cordas cada uma (bordão e duas cordas finas) e as três primeiras agudas e duplas.

A famosa Viola de Queluz, com suas 12 cordas
As violas de 12 cordas, raridades artesanais, foram construídas no Brasil entre meados do século XIX e início do século XX na cidade de Queluz (atual Conselheiro Lafaiete), em Minas Gerais, conforme modelo da antiga viola toeira de Portugal. Ficaram famosas com a denominação de “Viola de Queluz”, de modo que, colocar os dois instrumentos em um mesmo estojo seria, no mínimo, desconhecer a história cultural desse país.
A disposição das cordas da viola é bem específica: 10 cordas, dispostas em cinco pares, com os mais agudos afinados na mesma nota e mesma altura, enquanto os demais pares na mesma nota, mas com diferença de alturas de uma oitava. E estes pares de cordas devem ser tocados sempre juntos, seja na levada ou no ponteado, como se fossem uma só corda.
Os violeiros utilizam a afinação da sua preferência entre as muitas que estão à sua disposição, mas, como disse Roberto Corrêa, algumas delas disseminaram pelo sertão brasileiro: Cebolão, Rio Abaixo, Boiadeira e Natural. Para facilitar a compreensão, mas sem entrar em detalhes, detalho essas quatro afinações (as cordas são contadas de baixo para cima, das mais finas para as mais grossas):
Cebolão em Mi – E/B/G#/E/B (os velhos violeiros acreditavam que ao ouvirem a viola nesta afinação as mulheres choravam como se estivessem cortando cebola)
Cebolão em Re – D/A/F#/D/A (com esta afinação a viola tem mais facilidade de interação com o violão e outros instrumentos)
Rio Abaixo – D/B/G/D/G (esta denominação seria uma corruptela de Re abaixo)
Boiadeira – D/A/F#/D/G
Natural – E/B/G/D/A (esta é a mesma afinação usada no violão, sem a sexta corda, no caso do E).
Tomo emprestado o conhecimento do compositor e violeiro mineiro Ivan Vilela (Itajubá, 1962). Diz ele que entre os troncos principais da afinação está o Cebolão, e dentro do Cebolão surgem Boiadeira, Cana-verde e a Paraguaçu, que são próximas. Na sua avaliação, para tocar música caipira, a afinação Cebolão é a predominante. Mas, no norte de Minas, a mais comum é a Rio Abaixo.
Teorias, pesquisas e especulações
O texto abaixo é da autoria do violeiro, pesquisador e professor Fernando Clarus, do Centro de Estudos de Viola Caipira, em São José dos Campos, interior do Estado de São Paulo.
Em Portugal havia grande variedade de afinações para a viola de arame, a mesma que veio para o Brasil, trazida pelos colonizadores e pelos catequizadores, de modo que nossos tocadores herdaram esta característica. Assim, encontramos pelo sertão afora dezenas de afinações para a viola caipira.
Nessa gama de variedades é possível localizar uma mesma afinação com nomes diferentes, como ocorre com a denominada Cebolão, também chamada de São João, e, em alguns lugares do Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo, de Cebolinha. Também há afinações diferentes, mas com mesmo nome, como é o caso da Rio Abaixo.
Os velhos violeiros dizem que não se afina a viola, se tempera. Essa concepção tem explicação na dificuldade deles em conseguir encordoamentos de boa qualidade. O importante, mesmo, é saber que alguns fatores determinam o uso das afinações.
Entre os violeiros tradicionais, afinação era assunto pessoal, não raramente um mantinha segredo até a morte para que outro não tivesse a possibilidade de tocar igual.
Os tipos de afinações estão espalhados por todo o País, mas em algumas partes predominam determinados tipos, como acontece no Vale do Rio Urucuia, em Minas Gerais, onde a afinação Rio Abaixo, mesmo que com nome diferente, é a principal desta região mineira, cenário de “Sagarana”, romance de Guimarães Rosa.
Na região Centro-Sul podemos dizer que a Cebolão seria a afinação com maior predominância, mas, também, encontramos outras. No Nordeste no Brasil a afinação Paraguaçu é a utilizada pelos repentistas. Mas, encontramos violeiros utilizando afinações com este mesmo nome no Vale do Paraíba.
O ‘casamento’ com a altura da voz do cantador é importante fator na escolha da afinação, que pode ser usada em vários tons. Também, a construção do instrumento contribui para a escolha da afinação, sendo que, hoje em dia os luthier’s (construtores de instrumentos) fazem peças sob encomenda para serem utilizadas em apenas uma determinada afinação.
A grande variedade de afinações assusta ou fascina, e dessa maneira o iniciante no instrumento cai em um dilema sem fim. Podemos dizer que quase a totalidade do escasso material já publicado sobre viola caipira é baseada na afinação Cebolão.
Isso se deve a um relevante fator histórico: Quando das primeiras gravações de áudio da viola caipira, entre as décadas de 1910 a 1930, os violeiros e as duplas que iniciaram essa difusão, na maioria, utilizavam a Cebolão. Duplas como Tonico e Tinoco, Vieira e Vieirinha fizeram historia utilizando principalmente esta afinação.
Outro violeiro que teve grande repercussão, Tião Carreiro, considerado um marco na historia da viola caipira, também utilizava a afinação Cebolão.
Hoje em dia, quase todos os grandes violeiros que contribuem com a difusão da viola caipira utilizam a Cebolão. Em seu belíssimo trabalho, o livro “A arte de Pontear Viola”, o violeiro, compositor e pesquisador Roberto Correa baseia todo o conteúdo de ensino da viola caipira na afinação Cebolão.
Percebe-se, então, que ha um padrão, mesmo que informal, para o ensino da viola caipira utilizando este tipo. A afinação Cebolão pode seguir por vários tons, sendo mais comum em E (Mi) e D (Re). A afinação Cebolão em Re, pela comodidade de execução, devida à maciez das cordas e também pela relação de suas notas com a afinação de outros instrumentos, facilita a integração.
07.08.09
Mário Zan, compositor de hinos

Mário Zan, em uma chalana, no Rio Paraguai - foto cedida gentilmente por Mariangela Zan, filha do músico, para esta página.
MÁRIO ZAN, civilmente Mário João Zandomenighi, nascido em Veneza (Itália) a 9 de outubro de 1920 e falecido em São Paulo a 8 de novembro de 2006, não era violeiro e nunca tocou uma viola da forma magistral como o fez com o acordeão. É provável, até, que jamais tenha tocado uma viola.
Mas, não há um violeiro, um sequer, que não execute uma canção desse ítalo-brasileiro que veio com a família para o Brasil aos 4 anos de idade, desembarcando em Santa Adélia, interior do Estado de São Paulo. E entre essas canções está o rasqueado “Chalana”, dele e do paulista Arlindo Pinto (1906-1968), autor de expressivas composições sertanejas nas décadas de 1940 e 1950. Foi composta por volta de 1944, originalmente para acordeão, e gravada pelo Duo Brasil Moreno em 1952, em um 78 RPM que tinha do Lado B outro rasqueado, “Abandonada”, de Palmeira e Mário Zan.
O Duo Brasil Moreno, formado pelas irmãs Dora (Dora de Paula, 1917) e Didi (Antonia Glória de Paula, 1914), ambas paulistas de Guariba e já falecidas, regravou “Chalana” em 1969, em LP. Pertencentes a família de cantores, as duas começaram a cantar com outros irmãos em programas de calouro no final dos anos 1940. Inicialmente, como quarteto, depois trio. A dupla veio em 1952, permanecendo até metade da década de 1970.

O sanfoneiro Mário Zan
Em 1954, o próprio Mário Zan gravou a primeira versão instrumental de “Chalana” em um disco 78, pela RCA Victor, que tinha do Lado A “Falem de mim”, dele e Messias Garcia. Na sua concepção, a música instrumental (ou solada, como se referia às suas execuções, em que somente se toca o instrumento) permite que o ouvinte faça outras coisas enquanto escuta; a cantada exige atenção.
“Chalana” se transformou em um clássico e foi gravada também, dentre dezenas de outros intérpretes, por Zé do Rancho, no disco A Viola do Zé (1966); Duo Brasil Moreno – Chalana (1969); Tonico e Tinoco, no LP Laço de Amizade (1971); Almir Sater no CD Almir Sater no Pantanal (1990); Renato Teixeira e Pena Branca & Xavantinho, Ao vivo em Tatuí (1992), Helena Meirelles no seu primeiro disco (1994) e no CD ao vivo (2002); Pena Branca & Xavantinho, no CD Pingo D’Água (1996) e Sérgio Reis, em Grandes Sucessos (1999).
Mais recentemente, gravaram “Chalana”, Bruno e Marrone (com participação de Milionário e Zé Rico), no CD Acústico Volume II (2007); Divino e Donizete, em Perfil Sertanejo (2007); Roberta Miranda, no CD Senhora Raiz (2008); Viola do Cerrado, Ao Vivo (2008), Rolando Boldrin & Almir Sater, em Coração Sertanejo 2 (2009) e João Neto e Frederico, no CD Só Modão (2009).
No início dos anos 1990, a partir da telenovela “Pantanal”, da Rede Manchete, cuja trilha sonora incluía uma gravação de “Chalana” por Almir Sater, a canção se transformou em hino da região pantaneira, onde estão os Estados do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. Na definição da folclorista e apresentadora de rádio e televisão Inezita Cardoso (Inês Madalena Aranha de Lima, 1925) é a música que simboliza o Pantanal.
Musicalmente, a composição de Mário Zan e Arlindo Pinto representa na concepção de pesquisadores e músicos, entre os quais Almir Sater o primeiro movimento para a fusão da música brasileira com a música paraguaia – que viria a se materializar anos mais tarde. Embasamento musical ele possuía, pois, já no começo da carreira profissional, em 1933, tocava diversos ritmos, a ponto de, tão logo gravar o primeiro disco, um 78 RPM com o tango “El Choclo” e a valsa “Namorados”, da sua autoria, receber o convite para uma excursão de três meses por cidades do Sudeste e Centro-Oeste do País.
Foi justamente durante esta excursão, entre 1943 e 1944, que lhe veio a inspiração para compor a melodia de “Chalana”, cuja letra foi escrita depois por Arlindo Pinto. Da janela de um hotel, nas margens do Rio Paraguai, em Corumbá, o músico divisava uma curva do rio e, descendo as águas do rio, uma chalana. Sua filha, a instrumentista e cantora Mariângela Zan, em sua página na Internet, no espaço reservado à história do pai, traz o depoimento do sanfoneiro: “A canção surgiu do nosso sofrimento durante a excursão, da saudade que sentíamos, sem notícias da família”.

Mário Zan e outros artistas chegando a Corumbá, em 1944, na histórica excursão - foto cedida gentilmente por Mariangela Zan, filha do músico.
Segundo o Dicionário Houaiss o termo chalana define as embarcações usadas em águas fluviais, de fundo chato, lados retos e com proa e popa salientes. Na prática, é usada para a navegação nos rios pantaneiros, entre Brasil e Bolívia, mais acentuadamente no Rio Paraguai. É o principal meio de transporte nas regiões mais longínquas do Pantanal, por ser de grande porte. Ao contrário da gaiola, sem divisões internas, a chalana possui cabinas para passageiros.
Além de “Chalana”, hino das bandas pantaneiras brasileiras, outra composição do músico ítalo-brasileiro, o dobrado “Quarto Centenário”, se destacou e se transformou no hino da Cidade de são Paulo. Foi composta em 1954 em parceria com J. M. Alves para homenagear os 400 anos da fundação da Cidade de São Paulo e venceu o concurso municipal. O disco, também em 78 RPM, vendeu 1 milhão de cópias em poucos meses.
A beleza emanada da singeleza, mas jamais vulgar, das melodias compostas por Mário Zan ficou evidente, tal qual ocorreu com a “Chalana”, em Pantanal, também em “Nova Flor” (Os homens não devem chorar). Originalmente um rasqueado e gravada por Mário Zan em 1958, esta canção entrou na trilha sonora internacional da primeira edição da novela “Pecado Capital”, da Rede Globo, em 1976, com o grupo vocal norte-americano The Letterman cantando a versão inglesa “Love me like a stranger”.
“Nova Flor”, que recebeu o título “Los hombres no deben llorar” na letra versada para o espanhol por Pepe Ávila, foi gravada por Roberto Carlos em 1992, a partir de uma nova feição que ele e Erasmo Carlos deram à letra, a partir da edição espanhola, com toque de bolero. Na nova versão, os criadores da extinta Jovem Guarda sacrificaram a expressão “nova flor”, base do título original da canção de Palmeira e Mário Zan.
Os pesquisadores afirmam que a discografia de Mário João Zandomenighi – cuja simplificação para Mário Zan teria sido sugestão de Walter Foster – reúne cerca de 300 discos em 78 RPM, 105 LPs, além de 40 CDs, dos quais 30 ainda estão em catálogo. Os pesquisadores creditam essa popularidade, principalmente, ao fato de Mário Zan ser identificado em todo o País como o maior solista de festas juninas. Luiz Gonzaga costumava dizer, sempre que o chamavam de rei da sanfona: “Eu sou o rei do baião; o rei da sanfona é Mario Zan”.
Breve cronologia
1920 – Nasce, na região de Vêneto, nordeste da Itália, cuja capital é Veneza.
1924 – Chega ao Brasil, com a família.
1933 – Estréia como sanfoneiro profissional.
1939 – Começam as apresentações em rádios, pela Cruzeiro do Sul.
1940 – Vai ao Rio de Janeiro conhecer Luiz Gonzaga, onde fica por um tempo e toca na casa noturna Sambadancing.
1944 – Volta para São Paulo e inicia os shows, começando por Corumbá;
Compõe “Chalana”, que recebe letra de Arlindo Pinto;
Grava primeiro disco de 78 RPM com o tango “El Choclo” e a valsa “Namorados”, da sua autoria, pela Continental.
1946 – Indicado por Luiz Gonzaga para ocupar o seu lugar de solista na gravadora RCA, onde gravou mais de 300 discos de 78 rotações e 40 LPs.
1948 – Grava disco só com músicas juninas e cria a marcação cantada da quadrilha.
1954 – Grava o rasqueado “Chalana”, pela RCA Victor;
Grava o dobrado “Quarto Centenário”, em homenagem aos 400 anos da fundação da Cidade de São Paulo, em parceria com J. M. Alves;
Participa do filme “Da terra nasce o ódio”, de Antoninho Hossri.
1956 – Dedica-se a pesquisa musical e lança tupiana, um tipo índio com batidas ritmadas.
1958 – Grava o rasqueado “Nova flor” (Os homens não devem chorar).
1960 – Participa do filme “Tristeza do Jeca”, de Milton Amaral.
1963 – Participa do filme “Casinha pequenina”, de Glauco Mirko Laurelli.
1976 – A versão inglesa de “Nova Flor” (“Love me like a stranger”) gravada pelo grupo vocal norte-americano The Letterman entra na trilha sonora internacional da novela “Pecado Capital”, da Rede Globo.
1989 – Lamenta a morte de Luiz Gonzaga e prevê a descaracterização da música de São João.
1990 – “Chalana” faz parte da trilha sonora da novela “Pantanal”, da Rede Manchete.
1998 – Comanda o programa “Mário Zan e seus convidados”, na TV Rede Vida.
2002 – Sua obra é tema de enredo da Escola de Samba Rosas de Ouro.
2004 – A composição “Festa na roça”, parceria com Palmeira, foi apontada em pesquisa realizada pela Ecad como uma das mais tocadas nas festas juninas e joaninas no Brasil;
Recebe título de Cidadão Honorário de São Paulo, por ocasião dos festejos dos 450 anos da cidade;
Homenagem da Escola de Samba Rosas de Ouro, na passagem dos 450 anos da Cidade de São Paulo.
2006 - Homenagem dos governos dos Estados do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, pela autoria do rasqueado “Chalana”.
Sepultado, em São Paulo, no Cemitério da Consolação, em túmulo vizinho ao da Marquesa de Santos, como era seu desejo.
Com informações das páginas Saudade da Minha Terra , Viola na Pauta,
Raiz Caipira, Mariangela Zan e Dicionário Crabo Albin da MPB.
06.27.09
Mata do Iuiú, casos de onça e viola

A beleza das serras e matas da região próxima ao Vale do Iuiú
LOCALIZADO em extrema faixa de terra baiana, já perto de Minas Gerais, na margem direita do Rio São Francisco, o Vale do Iuiú, a 130 quilômetros a oeste da cidade de Guanambi, que em si, está a cerca de 700 quilômetros a sudoeste de Salvador, povoou meu imaginário de criança. A mata, os animais, os rios, os desbravadores, tudo entrava nas histórias que eu ouvia, contadas por pescadores e caçadores que se embrenharam por aquela região de trechos ainda virgens.
Quando saí da adolescência, no início da década de 1970, já não mais escutara casos da mata do Vale do Iuiú. Aqueles pescadores e caçadores, como por encanto, desapareceram. E com eles sumiram as histórias de onças que devoraram homens, mulheres e crianças naquelas matas fechadas; jacarés que engoliram braços e pernas de pessoas nas lagoas encantadas e de viajantes que se perderam e jamais foram achados.
Anos depois, essa situação veio a se materializar em minha consciência e projetou, de um lado, as causas do desaparecimento de uma das bases de minhas ficções infantis; do outro, o reflexo que essas histórias teriam, mais tarde, na minha formação cultural sertaneja. A exploração do algodão, que sucedeu à pecuária extensiva, foi o maior responsável pela extinção da mata do Vale do Iuiú, presente, agora, somente na lembrança.

Onça pintada, mas em cativeiro
… “A fogueira, a noite,
redes no galpão.
O paiero, a moda,
o mate a prosa,
a saga, a sina,
o causo e onça.
Tem mais não.
Oh! peão” ….
* Trecho de “Peão”, canção do Centro-Oeste, de Renato Teixeira e Almir Sater
Estudo apresentado em 2005 pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), durante um simpósio sobre reflorestamento, mostrou que apenas 5% da mata nativa da Serra Geral, Planalto de Conquista e Jequié haviam resistido ao desmatamento. Do Vale do Iuiú até Cândido Sales, passando por Vitória da Conquista, somavam, na época, mais de 250 quilômetros de mata destruída, ora para formação de pasto e agricultura, ora em lenha para carvão.
Nas informações a respeito do município do Iuiú, com 11.469 habitantes (2007) e uma área de 1.096 km², desmembrado em 2 de fevereiro de 1989 do município de Carinhanha, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra: “A fertilidade de suas terras chamou a atenção de muitos moradores de outras regiões, como Palmas de Monte Alto, Guanambi, Riacho de Santana, Bom Jesus da Lapa, Caetité e Carinhanha”.
Meu avô materno, Domingos Antônio Teixeira, faleceu em 30 de novembro de 1976, mas, antes dessa data, disse a mim que o povoamento de Carinhanha, nas margens do São Francisco, contou com a ação dos bandeirantes. Historiava que esses exploradores tomaram a região como base do comércio entre Minas e Bahia, principalmente para criação de gado. Certamente, meu avô teria dito: a ocupação do Iuiú está ligada à do município de Carinhanha.

O Vale - óleo sobre tela, 50x60cm, de Guilherme de Faria (São Paulo, 1943), da década de 1980, da coleção de Flávio Pacheco, São Paulo
O que são para mim a ocupação do Vale do Iuiú, a fertilidade de suas terras, a uma altitude de 490 metros, os casos de onça e a derrubada das árvores? Representam a ligação entre as diversas manifestações culturais que há por todo o sertão brasileiro e colocam-me frente a frente com a figura do repentista, do poeta cantador, que improvisa versos ao som da viola, rimados e metrificados, na forma de cantorias, trovas, versos ou cururus.
Segundo o poeta cantador mineiro Téo Azevedo, o repente está em toda parte do Brasil. No Nordeste é chamado de “cantoria” e chega a 60 modalidades; no norte de Minas Gerais é “jogar versos”, com 15 tipos; no Rio Grande do Sul, “trova”, com 10 formas; em São Paulo chama-se “cururu”, com cerca de 10 maneiras; no Centro-Oeste é “tirar-verso”, com pouco mais de quatro tipos; e no Rio de Janeiro é “partido alto”, com três modalidades (Encarte do CD “Cantoria de Viola”, Vol. 8).
Uma dessas cantorias, “Criança morta”, poema dos consagrados repentistas Sebastião da Silva e Moacir Laurentino, que ouvi pela primeira vez em 2000, no disco “Violas da minha terra”, fez-me relembrar das histórias dos caçadores e pescadores. Composto em sextilha, de sete sílabas em cada um dos seis versos, e cantado ao som da viola, narra a história de Edinete, criança de quatro anos de idade que se perde e morre de fome no mato, a seis quilômetros da sua casa.

CD de Moacir Laurentino e Sebastião da Silva, de 2000
No livro “Zé Limeira, poeta do absurdo”, o cantador, folclorista e professor paraibano Orlando Tejo (Campina Grande, 1935) escreveu: “Os cantadores constituem imensa legião de homens que amam, sonham, sofrem e brincam de viver no mundo, pescando estrelas, caçando ilusões, plantando tardes, colhendo auroras, levando sua imagem sutil e profunda, tímida e vigorosa ao povo ávido de poesia que os ouve embevecido”.
Ainda segundo Téo Azevedo, a cantoria nordestina apresenta diferentes modalidades, a exemplo da sextilha, do poema, do mote de sete sílabas e do mourão, entre outros, sempre dividida, basicamente, em tradicional, com versos prontos e decorados pelo cantador, e de improviso, que é o repente, do verso de momento usado nos desafios. Em ambos os casos, a criatividade e a preservação da cultura são regra para os cantadores e violeiros.
Duplas como Sulino e Marrueiro, violeiros do Sudeste, e Moacir Laurentino e Sebastião da Silva, repentistas do Nordeste, por exemplo, povoam meu imaginário sertanejo. Os primeiros, paulistas, com seus cururus decorados, e os outros dois, paraibanos, com seus repentes, mostram a mesma linha mestra: dois violeiros cantam versos sobre variados temas, acompanhados de uma viola.
Um exemplo, entre os muitos encontrados na música sertaneja, são a moda de viola “Corumbá” (O cachorro Corumbá), de Sulino e Teddy Vieira, e cantada pela dupla paulista, e o poema “Criança morta”, narrado pelos repentistas nordestinos, que seguem o mesmo fraseado: pessoas perdidas na mata, que morrem antes de chegar o socorro. São sextilhas (estrofes de seis versos), de sete sílabas cada um, com rimas nos versos pares, diferentes só no número de estrofes.
Seis estrofes (1ª,2ª, 5ª,6ª, 10ª e 11ª) das 13 que compõem o poema “Criança morta”.
Dos poemas que escrevi
por meio da inspiração.
Este é o mais comovente,
porque tem a narração
de um dos casos mais triste
que já se viu no sertão.
Trata-se de uma menina
de uma beleza extrema.
De quatro anos de idade,
com quem se deu o problema
e tornou-se a central figura,
das emoções do poema.
……
Vinte e sete de novembro
do ano setenta e seis.
Pelas três horas da tarde
ou pouco antes talvez
os pais de Edinete a viram
viva pela última vez.
Pois se a criança brincando
no pátio da moradia,
se entretendo com árvores
ou com animais que via
e aos pouco entrou no mato
sem saber pra onde ia.
…….
Na manhã do dia trinta
já todos sem esperança.
No lugar Serra dos Bois
num talhado que se avança,
neste local esquisito,
acharam morta a criança.
Morreu de fome e de sede
em situação singela,
mais ou menos seis quilômetros
do local pra casa dela.
As folhas foram seu leito
e a lua serviu de vela.
Abaixo, sete (1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 6ª, 7ª e 8ª) das dez que formam a moda de viola “Cachorro Corumbá”:
No sertão do Paraná
vou contar o que assucedeu
Uma jovem paranista
que ali desapareceu.
Por causa de um namorado
a coitadinha enlouqueceu
Isto foi no meis de agosto
este fato aconteceu…ai
Ela entrou na mata escura
bem no centro se perdeu
Ela foi pra suicidar
mas sua corage não deu
Um cão por nome Corumbá
junto com ela rompeu
No meio daquelas fera
o Corumbá foi que valeu
E no pé de uma figueira
ela chegou e escureceu
Ali passou a noite inteira
na hora que amanheceu…ai
Ela viu um pavão gemeira
e seu corpo estremeceu
Por ela tá nervosa
ainda mais entristeceu.
…….
Esta sorte tão ingrata
que não me favoreceu…ai
E dipois dessas palavras
suas força enfraqueceu
a pobre caiu no chão
entregou sua arma a Deus
Na hora dela morrer
pro Corumbá ela agradeceu
Obrigado meu bão amigo
que muitas veiz me valeu
Você foi um companheiro
que sempre me defendeu
Corumbá deu um uivado
que até a mata tremeu…ai
Ela fêis a despedida
paraíso, adeus, adeus,
Deu um suspiro duído
e na mesma hora morreu.
* A grafia segue a pronúncia dos violeiros, na gravação de 1949








